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10/23/2026
Documentários que Mudaram o Mundo
Por Amir Labaki

Quais filmes comprovadamente tiveram um impacto social, legislativo e político na época em que foram lançados? Filmes podem mudar o mundo? Em ambos os casos, o universo questionado é o do documentário.

Formulada há quase duas décadas pelo crítico e documentarista Mark Cousins, a primeira pergunta apresentava no catálogo do É Tudo Verdade em 2008 a retrospectiva “Dez Filmes Que Mudaram o Mundo”, originalmente apresentada no ano anterior pelo British Film Institute (BFI), em Londres, Inglaterra. Com a segunda, recoloca a questão Marek Hovorka, diretor do Festival Internacional de Cinema Documentário de Jihlava, na Tchéquia (a antiga República Tcheca), que celebra com o ciclo especial “Filmes Que Mudaram o Mundo” sua 30ª edição, desta sexta-feira (23) até 1º de novembro.

As listas de dez títulos de Cousins e de treze em Jihlava partilham apenas duas escolhas. São ambos clássicos incontornáveis: “Minamata: A Vitória das Vítimas” (1971), do japonês Noriaki Tsuchimoto, e “A Tênua Linha da Morte” (1988), do americano Errol Morris. Processos judiciais estão ao centro de ambos.

Tsuchimoto acompanha uma ação nas cortes movida por pescadores contra o conglomerado Chioso pela poluição por mercúrio das águas da Baia Minamata. A investigação por Morris, por sua vez, reverte a condenação à morte de Randal Dale Adams, julgado pela morte de um policial em Dallas, Texas.

O impacto de ambos transcendeu seus imediatos efeitos concretos. “Minamata” consagrou-se como um dos marcos do documentarismo ecológico, um braço essencial da produção contemporânea, tendo influenciado, para ficar apenas num exemplo, o recente “Amazônia, A Nova Minamata?” (2002), de Jorge Bodanzky. A febre em “streaming” das produções de “true crime” muito deve, em versões notoriamente muito menos inspiradas, a “A Tênua Linha da Morte”.


As seleções me parecem pautadas por uma diferença de foco nas curadorias. As escolhas de Cousins têm ao centro obras de repercussão no quadro maior da política e de questões humanitárias. Como Hovorka mesmo explica, sua relação privilegia “filmes que se colocam ao lado das pessoas comuns – indivíduos, comunidades e a sociedade como um todo”.

Vale conhecer título a título as duas listas, sendo possível a você assistir a muitos dos escolhidos em streaming, YouTube ou DVD. Comecemos com a curadoria de Cousins: “Em Nome da Liberdade” (1980) , de Hussein Torabi, sobre a revolução islâmica iraniana; o curta “BBC News -Relatório Etiópia” (1984), de Michael Buerk e Mohamammed Amin, com a devastadora catástrofe pela fome; “Tiros Em Columbine” (2002), em que Michael Moore radiografa as raízes da violência e da obsessão armamentista nos EUA; “A Dor e A Piedade” (1970), a dissecção por Marcel Ophuls do colaboracionismo na França ocupada pelos nazistas; “Morte de Uma Nação: A Conspiração Timorense” (1994), em que David Munro e John Pilger revelam um até então desconhecido massacre em 1991 de civis em Timor Leste, pré-independência; “McDifamação” (2005), de Franny Armstrong, sobre um pioneiro processo na Inglaterra em torno de críticas sobre a cadeia de “fast food”; “A Revolução Não Vai Passar na TV” (2003), de Kim Bartley e Donnacha O’Briain, sobre a tentativa de golpe de Estado contra o presidente venezuelano Hugo Chávez em 2002; “O Triunfo da Vontade” (1936), o filme de propaganda central do regime nazista, dirigido por Leni Riefenstahl; além das obras citadas de Morris e Tsuchimoto.

O programa de Jihlava por sua vez apresenta: o curta “Terra Sem Pão” (1933), de Luis Buñuel, sobre o cotidiano miserável numa região espanhola próxima da fronteira com Portugal; o também curta “A Chamada da Indonésia” (1947), a defesa por Joris Ivens da independência recente do arquipélago no Sudeste Asiático; o especial televisivo “Colheita da Vergonha” (1960), de David Lowe, Edward R. Murrow e Fred W. Friendly, a respeito da pobreza de camponeses imigrantes nos EUA; “Criança Sem Amor”, em que Kurt Goldberger denuncia os traumas psicológicos provocados por instituições públicas de cuidado à infância na então Tchecoslováquia; “Titicut Follies (1967)”, o registro por Frederick Wiseman do cotidiano tóxico no Hospital Estadual de Bridgewater para Criminosos com Transtorno Mentais, em Massachusetts, EUA.

A lista tcheca prossegue: “Até Logo, Eu Espero” (1968), de Chris Marker e Mario Marret, radiografa os debates durante uma greve operária na França de 1967; “A Guerra de Três Dias em Narita” (1970), é um dos cinco episódios dirigidos por Shinsuke Ogawa sobre a mobilização de resistência à instalação do aeroporto perto de Tóquio; “Harlan County: Tragédia Americana” (1973), clássico de Barbara Kopple sobre uma greve pela sindicalização de mineiros entre 1973 e 1974; para “Trabalhador ‘80” (1980), Andrzej Chodakowski e Andrzej Zajączkowski acompanham a histórica greve em Gdansk que originou o movimento Solidariedade na Polônia; em “Não Uma História de Amor: Um Filme Sobre Pornografia”(1981), Bonnie Sherr Klein desconstrói sob uma perspectiva feminista a indústria de “filmes adultos” canadense ; “S-21: A Máquina de Morte do Khmer Vermelho” (2003), de Rithy Panh, esmiuça a história de um dos centros de tortura e assassinato do regime comunista do Camboja entre 1974 e 1979; mais a dupla acima referida.

Marcadas as diferenças, uma constatação de Mark Cousins me parece fundamentalmente aproximar as listas. “Se estes cineastas buscaram mudar o mundo ou o fizeram de forma não intencional, a diversidade formal destes filmes mostra o documentário menos como um gênero (ou sub-setor) cinematográfico do que algo com uma megalópole fílmica, na qual gêneros e linguagens do filme convivem e interagem”. E, poderia complementar, ciclos como estes comprovam como mal começamos a investigá-la.


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