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10/16/2026
Musk Descontruído

Por Amir Labaki

Para ir direto ao ponto, há duas referências mais marcantes ao Brasil nas quase quatro horas de “Musk”, o documentário de Alex Gibney (Um Táxi para Escuridão, Oscar de documentário em 2008) sobre o trilionário da SpaceX, em cartaz agora na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo simultaneamente ao lançamento em salas nos EUA, depois da pré-estreia mundial mês passado no 83º Festival de Veneza. As relações entre Elon Musk e o ex-presidente Jair Bolsonaro e o embate do dono da X com o Ministro do STF Alexandre de Moraes combinam-se inicialmente passados cerca de 40 minutos da segunda das duas partes.

Primeiro há uma reprodução de uma postagem no X por Bolsonaro, com uma foto aparentemente montada de seu encontro real com Musk no interior de São Paulo em maio de 2022. Com a imagem, Gibney abre uma sequência sobre a estratégia de Musk de “emprestar o poder de sua plataforma a políticos que podiam enriquecê-lo”, pela expansão de seus negócios, como a fábrica de automóveis elétricos Tesla e o provedor de internet por satélite Starlink. Depois do brasileiro, eis cenas com o primeiro-ministro da Índia, Narenda Modi, e com o presidente da Argentina, Javier Milei. 

Segue-se uma reportagem em inglês da TV Al Jazeera, aberta por uma breve imagem gravada do mesmo encontro, com uma repórter em off citando as tentativas de Bolsonaro de “minar a integridade das eleições de 2022” e o confronto de Musk com “o arqui-inimigo de Bolsonaro, o ministro do Supremo Tribunal (Federal), Alexandre de Moraes”. “Logo o X vai publicar tudo demandado por @Alexandre e como estas exigências violam leis brasileiras”, lê-se na tela o texto de uma postagem no X de Musk, em abril de 2024. Sustentando ter “este juiz (...) repetidamente traído a Constituição e o povo do Brasil”, Musk exige: “ele deve renunciar ou ser afastado por impeachment. Vergonha, @Alexandre, vergonha”. Na sequência, eis Bolsonaro num comício pedindo “uma salva de palmas para Elon Musk”.

 

O filme não desce a detalhes sobre a suspensão do X no país, determinada por Moraes em agosto de 2024, pelo descumprimento de ordens judiciais e ausência da devida representação legal da empresa no Brasil. O bloqueio durou 39 dias.

A contenda com Moraes volta à tona, porém, alguns minutos mais tarde. A influenciadora digital Ashley St. Clair, mãe de um dos 14 filhos de Musk e com ele rompida, completa o quadro: “Estávamos muito envolvidos numa relação e ele também confiava em mim quanto a assuntos estratégicos que ele tinha”. 

Uma tela exibe duas mensagens no X de Musk: “Do contrário, X está morto no Brasil e assim também Starlink. Podem eles conseguir esses três votos?” St. Clair esclarece: “Num certo ponto, ele pediu que o conectasse com uma série de senadores críticos no Brasil. Quando ele teve uma questão com o X no Brasil”.

O breve caso brasileiro exemplifica o perfil de Elon Musk minuciosamente traçado por Gibney: um obsessivo homem de negócios high-tech com uma não menos compulsiva construção da imagem de visionário. O filme desconstrói, em capítulos temáticos quase ortodoxamente cronológicos, seus vícios públicos e privados.

Cada joia da coroa tem sua história revirada. A tomada agressiva da Tesla e a crônica do trágico impacto de seus carros eletrônicos pretensamente autodirigíveis. O desenvolvimento da indústria espacial SpaceX, fortemente subsidiada por recursos públicos, e a quimera da colonização de Marte. A aquisição do Twitter, seu desmonte estrutural e financeiro e sua transformação, sob a justificativa retórica de defesa do “free speech”, numa plataforma de nebulosa gestão de algoritmos escancarada para discursos radicais de extrema-direita e para a autopromoção de Musk como a X. A antiga xIA, hoje SpaceXAI, e sua incursão na corrida pelo desenvolvimento da inteligência artificial, inicialmente temida de forma pública por Musk e agora frenética e opacamente abraçada.

A turbulenta relação com Donald J. Trump é radiografada em vários capítulos da hora final. Mais que programática surge como pragmática, a partir da preocupação de Musk com três dezenas de investigações federais sobre suas empresas. “A administração Biden me vê como a ameaça número 2 depois de Trump”, afirma ele numa mensagem. St. Clair testemunha: “Ele achava que Trump era um presidente mais fácil de comprar”. 

Ei-lo definindo-se como “Dark Maga” e assumindo na segunda administração Trump o novo “departamento de eficiência administrativa” (DOGE, na sigla em inglês), com a meta de cortar US$ 3 trilhões do orçamento federal. Gibney estima que em seus 130 dias no cargo, a motosserra de Musk, inspirada na desmontagem do Twitter, obteve cortes de US$ 215 bilhões, por demissões e cancelamento de atividades, bagunçando programas de áreas da educação à saúde, passando por agências de controle e de ajuda humanitária internacional como a USAID.

Os capítulos da vida privada tampouco engrandecem Musk. Apenas ao fim da primeira parte, suas origens familiares e infância na África do Sul sob o regime racista do apartheid apresentam um menino introvertido, vitimado por espancamentos de colegas e acossado por um pai violento e tóxico. Já nos EUA, suas ambições financeiras e seus delírios de genialidade inventiva são precoces. Gibney o espelha com o protagonista de um filme britânico de ficção científica adaptado de H. G. Wells, “O Homem Que Fazia Milagres” (1936), de Lothar Mendes, em que um medíocre funcionário de uma loja de roupas recebe de deuses poderes mágicos ilimitados e entroniza-se como líder mundial para reformar o planeta e acaba o destruindo.

Para sua desenfreada ânsia de procriação, “Musk” lembra outro paralelo, com o imperador chinês de origem mongol Kublai Khan (1215-1294) e sua prole de doze filhos com esposas e concubinas. Entre as entrevistas com algumas das mães de seus filhos, nenhuma é mais tocante do que o da escritora Justine Musk, sua primeira mulher e mãe dos seis primeiros rebentos.  Em dois momentos distintos, ela recorda a morte do primogênito com apenas dez dias de vida e se revolta com Musk por ter declarado “morta” (pelo “vírus woke”) sua filha trans, Vivian, de 22 anos.

Alex Gibney driblou com engenho a recusa de Elon Musk em ser entrevistado, criando um impressionante avatar dele para pontuar a narrativa com uma antologia de declarações dele colhidas em arquivos. Pode soar algo estranho, mas, utilizado com parcimônia e precisão, funciona. Aliás, o impecável controle narrativo de “Musk” torna suas quase quatro horas de fluência invejável.

Num comentário postado no Facebook, o decano dos estudos sobre documentário, o americano Bill Nichols, foi mais uma vez certeiro. “Ele (Gibney) pode até recorrer a entrevistas e imagens de arquivo, bem como a comentários que contextualizam a narrativa, e não ostentar o impacto visual de um Errol Morris ou as excentricidades temáticas de um Werner Herzog; ainda assim, é praticamente o único cineasta a abordar de forma consistente os crimes e delitos da classe dominante. Da denúncia sobre a Enron à dissecação implacável de Musk, Alex Gibney tem oferecido lições de história inestimáveis ​​sobre a ganância, as fraudes, as ilusões e a imoralidade dos expoentes de um sistema econômico que cobra seu preço de todos nós diariamente”.

De fato, vendo “Musk” uma estrofe de Brecht rondava-me os ouvidos. Tubarão tem dentes fortes que não procura esconder.


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