Por Amir Labaki
Como nunca no país a vasta obra cinematográfica de Alberto Cavalcanti (1897-1982) está por toda parte. Parece a feliz combinação de vários fatores: a pluralização do restauro de filmes clássicos, impulsionado no país pela Cinemateca Brasileira; o centenário do primeiro título a inscrevê-lo na história do cinema, o francês “Nada Além da Horas”, uma das pioneiras “sinfonias da cidade”; a reafirmação de seu papel destacado no desenvolvimento dos documentários, neste momento de maior difusão da história das obras não-ficcionais.
Com quase duas centenas de títulos como diretor, produtor, cenógrafo, roteirista e montador, os filmes de Cavalcanti ganham inédita visibilidade nas telas de mostras recentes e mesmo em streaming, no Belas Artes À La Carte. O principal evento é a ampla retrospectiva em duas partes dedicada a ele pela Cinemateca Brasileira, intitulada “O Brasileiro Alberto Cavalcanti”. Com uma série de cópias restauradas de obras capitais, realizadas pela instituição nacional e pela Cinemateca Francesa, a primeira etapa, de 24 títulos, foi encerrada no último final de semana. A segunda parte está prevista para o próximo ano, quando do lançamento do volume “Um Homem e o Cinema”, organizado por Carlos Augusto Calil e Olga Futemma com suas memórias inéditas e raros textos complementares.
Enquanto aguardamos seu lançamento, um primeiro documentário biográfico de longa-metragem, “Cavalcanti” de Jairo Neto e Graubi Garcia, participa a partir da próxima semana da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O cineasta marca duplamente também o corrente Festival do Rio. Além da cópia restaurada pela Cinemateca Brasileira, exibida em seu ciclo, de uma das últimas realizações de Cavalcanti, o telefilme francês de uma montagem teatral de “A visita da velha senhora” (1971), de Friedrich Dürrenmatt, ei-lo reverenciado por Mark Cousins nos dois primeiros capítulos de sua “História do Cinema Documentário” (2026).
O ponto de partida da celebração por Cousins é exatamente o agora centenário “Nada Além das Horas” (1926), que tem Paris por protagonista numa das pioneiras “sinfonias da cidade”, que serão analisadas por Luis Felipe Labaki num curso no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc-SP entre os próximos dias 15 e 23. “Uma sinfonia antifuturista”, como escreve Calil no catálogo da primeira parte da retrospectiva, “que não cede à vertigem da velocidade, nem ao otimismo da racionalidade”.
A seleção de filmes da parte inicial de “O Brasileiro Alberto Cavalcanti” apresentou um sobrevoo instrutivo do que se convencionou dividir com as quatro grandes fases de sua carreira: a francesa, a britânica, a brasileira e a itinerante. É uma divisão didática de raiz cronológica, tornada mais complexa pelos períodos distintos em cada parada, com possível exceção da última errância.
Nascido no Rio de Janeiro no seio de uma família da alta burguesia pernambucana, Cavalcanti teve interrompidos seus primeiros estudos de Direito indo se formar na Suíça em arquitetura. Como conta Carlos Augusto Calil no catálogo da mostra, “após tentativas de encontrar trabalho nos escritórios da profissão, Cavalcanti se sentiu atraído pelo cinema, uma linguagem artística então embrionária”. Já em Paris, formação e talento garantiram-lhe de saída uma colaboração como cenógrafo de um dos cineastas essenciais da vanguarda da escola silenciosa francesa, Marcel L’Herbier (1888-1979), em “A Desumana” (1924).
Num par de anos, ei-lo rapidamente estabelecido como diretor (Le Train Sans Yeux, “Nada Além da Horas”), afirmando-se logo a amplitude de sua paleta e seu pragmatismo profissional. O cineasta dos dramas realistas “À Deriva” e “Yvette” (1927), que dialoga com a primeira fase do amigo Jean Renoir (casado com a protagonista de ambos os filmes, Catherine Hessling), é também o da comédia de boulevard “A Coisa Brasileira” (1932), na qual antecipa o que seria o cinema de Sacha Guitry).
Iniciada em 1934, a segunda fase, britânica, abriu-se com seu estabelecimento na equipe formada por John Grierson (1898-1972) para a produção documentários de pegada social, a G.P.O. Film Unit. Ao lado de Humphrey Jennings (1907-1950), liderou a vertente mais inventiva e poética, empenhada sobretudo em experimentos com o som, como diretor em curtas como “Cara De Carvão” (1935) e produtor em “Correio Noturno” (1936), de Harry Watt e Basil Wright.
Ao correalizar com o montador Ernest Lindgren o filme antologia “Filme e Realidade” (1942), sobre “o desenvolvimento do filme realista” com clipes de títulos na aurora do cinema ao início da Segunda Guerra, explicita a cisão conceitual que sustentava frente a Grierson, preferindo este a definição “documentário” ao que Cavalcanti nomeava como “neorrealismo” (anos antes da escola italiana de De Sica, Rosselini e Zavattini). Ao engajar-se na consolidação do principal estúdio inglês dos anos 1940 (o Ealing), Cavlcanto voltou a reafirmar, em gêneros ficcionais diversos, o grande arco de seu talento e profissionalismo, como o ciclo comprovou no policial “Nas Garras da Fatalidade” (1947).
Entre 1949 e 1954, o retorno ao Brasil do filho pródigo foi por ele mesmo definido como “um desastre para mim”. Frustrou-se primeiro com a breve experiência à frente da Vera Cruz, a tentativa de Franco Zampari lançar uma Cinecittá nos trópicos. Na sequência, trabalhando com produtoras independentes, dirigiu um trio de longas-metragens de recepção no máximo morna: a estupenda sátira “Simão, O Caolho” (1952), o drama poético pernambucano “O Canto do Mar” (1953) e a comédia de costumes “Mulher de Verdade” (1954). Em cópias recém-restauradas, os dois últimos buscam agora nova compreensão.
“Estrangeiro eterno” (Henri Langlois), ou “cineasta internacional”, como se autodefiniu, Cavalcanti aplicou-se nas duas décadas finais de sua carreira sobretudo em adaptações para cinema e televisão mundo afora. O ciclo da Cinemateca recuperou uma trinca heterodoxa: “O Sr. Púntila e Seu Criado Matti” (1960), aprovado pelo próprio Bertolt Brecht; o infantojuvenil britânico “O Monstro de Highgate Ponds” (1961); e a citada filmagem da montagem de Dürrenmatt.
Cav, Cavalcanti, Alb. Cavalcanti. (sic), Alberto Cavalcanti. Folheie-se a historiografia do cinema, é ele o primeiro brasileiro a se destacar. Esfinge a decifrar? Seria uma fórmula fácil demais para um cineasta imenso, que em meio século erigiu uma obra desafiadora antes pela dispersão geográfica do que por sua admirável complexidade estilística. Muito demorou, mas sua hora parece ser agora.