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10/02/2026
“NAZA”: LICENÇA PARA MATAR

Por Amir Labaki

Comecemos pelo título. Acho que não estava sozinho ao imaginar que “NAZA” fosse uma aproximação por contração entre “nazi” e “Gaza”. É mais sofisticado do que isso. 


“’NAZA’ é dano colateral”, explica um dos 24 soldados e agentes de inteligência de Israel entrevistados pelos cineastas israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor para o documentário, que estreia nesta semana no Brasil. Um acrônimo neutro para definir nas comunicações internas a morte de vítimas civis palestinas nos ataques pela Forças de Defesa Israelense (FDI).

Os depoimentos foram colhidos nos telhados noturnos de Tel Aviv, entre 2023 e 2025. Abraham conduz as entrevistas, com as identidades dos depoentes preservadas pela captação com os perfis no escuro e pela modificação de suas vozes na edição. Com bem define Jay Weissberg em sua resenha para a Variety, “alguns estiveram envolvidos em vigilância, muitos guiaram drones letais desde a segurança de suas sedes em Tel Aviv, e outros estiveram no terreno. Todos participaram na supressãonão apenas da presença humana em Gaza, mas das próprias construções”.

Vamos ouvi-los -aqui, lê-los. A edição não segue a ordem no filme, para preservar sua experiência como espectador.

“Oficiais de inteligência são considerados a elite social de Israel”.

“O sentimento em Israel é que aquilo é o que devemos fazer”. 

“A atmosfera geral é ódio. Você compreende que o objetivo é destruir”.

“A diretriz era destruir tudo o mais rapidamente possível, antes que perdêssemos a legitimação internacional”.

“Quando as pessoas falam em arrasar Gaza, o que quer dizer que não executarmos pessoas?”

“Nós usamos os telefones da família para ouvi-los em suas casas para bombardeá-los. Eu podia ouvir pelo telefone os últimos momentos de uma vida”.

“Foram 500 mortos em um alvo (do Hamas)”.

“20 NAZA se tornou uma referência. 20 para um alvo”. 

“Quem você decidisse matar era considerado um terrorista”.

“Esqueça a expressão ‘armados’. É irrelevante. Só uma vez vi alguém armado”. 

“Você anda por Gaza, você vê cadáveres”.

“Os cães comem os corpos”

“Meu papel é totalmente técnico”.

“Não havia realmente ódio a árabes ou desumanização extrema (...) Tudo que posso dizer é que estávamos completando a missão”. 

“Você completa a missão, é preciso e tem um sentido de propósito. É divertido. É realmente agradável”.

“É como um videogame, sempre dizíamos. (...) Os alvos eram como um videogame”.

“Somos chamados de departamento de Bibi. Coletamos inteligência que vai para o Primeiro-Ministro”.

“Em nosso departamento, toda atividade diplomática palestina é vista como ameaça à segurança”.

“O objetivo final de Bibi é evitar um Estado palestino”.

Alguns entrevistados recorrem a desenhos em cadernos pata melhor ilustrar suas atividades: a captação de informação de cerca de 70 mil celulares palestinos; a definição de alvos em edifícios e cercanias ainda que com o levantamento de que, por exemplo, foram em apenas 75% evacuados; a execução de qualquer palestino que deixasse a fila dos que corriam para os postos de distribuição de alimentos.

Pela edição, suas falas são comentadas por imagens da rotina dos moradores nos prédios vizinhos. Aqui e ali surgem aparelhos de TV e computadores com informes jornalísticos, como o de um ano do ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro que massacrou 1200 pessoas, em sua imensa maioria de civis israelenses, e que àquela altura ainda mantinha mais de cem reféns, “vivos ou mortos”. 

Uma das gravações da cidade flagra um grande telão no prédio da Cinemateca de Tel Aviv, exibindo uma cena de “Shoah” (1985), a monumental série sobre o extermínio de judeus pelos nazistas, num ciclo em homenagem a seu diretor, Claude Lanzmann. Corte. Eis, numa declaração televisada, Benjamin Netanyahu sustentando: “80 Anos depois do Holocausto, as instituições internacionais criadas para prevenir outro Holocausto estão tentando negar ao estado judeu o direito de proteger-se”. 


Sucede-o uma apresentadora de telejornal noticiando as ordens internacionais de prisão emitidas contra o Primeiro-Ministro israelense. Elenca uma a uma as acusações: crimes de guerra (ataques intencionais de civis; impedimentos a tratamento médico e ajuda humanitária; uso da fome como arma de guerra), crimes contra a humanidade (morte e perseguição de civis). No meio do filme, uma cartela estima em mais de 73 mil o número de vidas palestinas ceifadas em Gaza.

Ao lado dos cineastas palestinosBasel Adra e Hamdan Ballal, Yuval Abraham e Rachel Szor levaram o Oscar de melhor documentário de longa-metragem de 2025 com seu filme anterior, “Sem Chão” (No Other Land), um registro à quente da truculência de forças militares israelenses contra os moradores de um vilarejo palestino na Cisjordânia. Desde que “NAZA” recebeu em sua estreia há um mês o Prêmio Especial do Júri do Festival de Veneza, o governo Netanyahu partiu para o ataque contra Abraham e Szor, ameaçando cassar-lhes a cidadania israelense por “traição” e “difamação”. Atiram agora nos mensageiros.


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