Por Amir Labaki
Ao honrar em 2005 a celebração de uma década do É Tudo Verdade com sua visita para uma inédita retrospectiva no Brasil, o documentarista americano Robert Drew (1924-2014) me surpreendeu respondendo enfaticamente que a o evento mais marcante que tinha vivido havia sido o ataque japonês a Pearl Harbour, em dezembro de 1940, catalisando o decisivo engajamento dos EUA na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Eu tinha em mente duas outras respostas: o assassinato em novembro de 1963 do presidente americano John Fitzgerald Kennedy (1917-1963) e o trauma ainda recente do ataque terrorista do Al-Qaeda que derrubara as torres gêmeas do World Trade Center de Nova York, em 11 de setembro de 2001.
Por um lado, em seu papel fundamental para a eclosão da escola do Cinema Direto que revolucionou o documentário na virada dos anos 1950 para os 1960, Drew realizara no calor da hora os documentários mais marcantes sobre a ascensão, a presidência e a morte brutal de JFK, notadamente “Primárias” (1960), “Crise” (1963) e o curta “Faces de Novembro” (1963). De outro, o recebíamos em plena guerra ao Terror decretada pelo presidente George W. Bush, no pico das invasões ao Afeganistão e ao Iraque e das denúncias internas e externas de violações aos direitos humanos.
Muito conversamos sobre os imensos choques desses dois eventos históricos, mas nada se comparava para Drew, como impacto pessoal e geracional, à vilania nipônica que testemunhara aos 17 anos e fora decisivo para seu engajamento como piloto de guerra no front europeu, tendo sobrevivido ao abatimento de seu avião sobre os campos da Itália. Lembrei de seu depoimento ao assistir às entrevistas com jovens soldados americanos que se engajaram nas guerras iniciadas por Bush Jr. no documentário “Ponto de Virada: Geração 11 de Setembro”, de Brian Knappenberger, recém-lançado em streaming pela Netflix.
O lançamento acontece no marco nesta semana de um quarto de século da barbárie de 11 de setembro. Com o novo longa-metragem, Knappenberger dá sequência à sua narrativa sobre os ataques e as respostas americanas que já originara há cinco anos a primeira produção da coleção “Ponto de Virada” na Netflix, intitulada “11 de Setembro e a Guerra ao Terror”. Duas outras se seguiram, sobre a corrida nuclear, em 2024, e sobre a guerra no Vietnã, no ano passado, todas sob a batuta do mesmo cineasta.
Como adianta o título, “Geração 11 de Setembro” se distingue da série anterior pelo foco não sobre testemunhas e vítimas diretas do terrorismo radical islâmico, e sim sobre crianças e jovens que sofreram suas consequências. A grande sacada de Knappenberger na seleção de personagens é privilegiar vozes e histórias do largo espectro multiétnico essencial à experiência norte-americana, em contraste com as políticas contra imigrantes nestes sombrios tempos trumpianos.
Órfã de um dos tripulantes de um dos aviões sequestrados, a afro-americana Laurel Homer discorre sobre a dor de uma vida familiar violentamente cancelada e o corajoso enfrentamento do “bullying” das teorias conspiratórias negacionistas da história mesma da tragédia -os “Truthers do 11/9”.An Nguyen, que perdeu o pai imigrante sul-vietnamita funcionário do Pentágono, contrasta a experiência paterna, “testamento do Sonho Americano”, com a ascensão de discursos racistas e com as caóticas intervenções militares.
Engajados por devoção patriótica em diferentes etapas destes cruelmente alongados conflitos, os fuzileiros navais Christian Sanchez, Michael Smoak e Wyeff Wilson testemunham sobre o despreparo militar, notadamente da invasão ao Afeganistão e da caótica retirada, duas décadas depois, decretada no ocaso da primeira administração Trump e realizada em 2021 já sob Joe Biden.
A sequência dedicada à improvisada Operação Refúgio dos Aliados, para retirada aérea de americanos e dos afegãos de apoio, brutalmente encurtada pelo ataque terrorista por um sucessor da Al-Qaeda ao Abbey Gate, um dos portões hiperlotados de acesso ao Aeroporto Internacional Hamid Karsai, ressoa como um epitáfio cruel para os desvarios da guerra ao Terror. Para piorar, o regime repressivo do Talibã derrubado em 2001 retornou ao poder.
“Geração 11 de Setembro” alinhava de forma sutil e contundente as dimensões privadas e públicas, nos EUA e no mundo, da trágica herança do 11 de setembro. Para tanto, cumprem papel essencial as reflexões de um dos raros especialistas ouvidos, o jornalista especializado em segurança nacional Spencer Ackerman.
“A sensação de termos sidos violados fez parecer que qualquer coisa podia acontecer como se o inferno tivesse sido aberto”, argumenta. O estabelecimento em 2002 de um inédito Departamento de Segurança Interna vinculou o combate ao terrorismo à política de imigração. “Foi o começo das agências que se tornaram o ICE”.
“Donald Trump não é um homem sutil, mas entende bem as entrelinhas”; sustenta Ackerman. “Ele percebeu muito cedo que a guerra ao Terror era um caminho até o poder para os setores nacionalistas inflamados que sentiam que o país estava cada vez mais escapando de suas mãos”.
Não à toa seu livro intitula-se “Reign of Terror: How the 9/11 Era Destabilized America and Produced Trump”, (Reinado do terror, como o 11/9 desestabilizou os EUA e produziu Trump, Viking, 2021, 448 págs, US$ 19, inédito no Brasil). “Acham que a guerra ao Terror acabou”, conclui Ackerman. “Apenas mudaram o alvo”. Aquele dia funesto nem passado é.
