Por Amir Labaki
A noite chegava cedo em Manarairema”. José J. Veiga iniciava com esta frase a construir a atmosfera distópica de seu clássico da literatura de realismo fantástico, “A Hora dos Ruminantes’, publicado em 1967, na esteira da implantação da ditadura militar em 1964. No calor de seu lançamento, o crítico e roteirista Jean-Claude Bernardet (1936-2025) e o cineasta Luiz Sérgio Person (1936-1976) captaram seu potencial cinematográfico para uma nova parceria. O roteiro plenamente desenvolvido e sua produção interrompida já a todo vapor são agora recuperados pelo documentário “Os Ruminantes”, de Tarsila Araújo e Marcelo Mello, em cartaz pelo país depois da pré-estreia no É Tudo Verdade do ano passado.
O ponto de partida foi a tese de doutoramento de Mello em estudos literários na UFMG, “Espetáculo e Resistência no Roteiro Cinematográfico Inédito de ‘A Hora dos Ruminantes’” (2019). Não se tema qualquer aridez acadêmica em dinâmico e fascinante desenvolvimento fílmico não-ficcional. Citações do roteiro, notícias de jornal, trechos de filmes posteriores e do cinema de Person (São Paulo Sociedade Anônima; O Caso dos Irmãos Naves) e entrevistas inéditas com Bernardet, com a cineasta Marina Person (filha do diretor) e com seu assistente, Sebastião de Sousa, contextualizam a produção frustrada na obra do realizador paulista e de Bernardet e no Brasil autoritário da época.
Depois de sua esfuziante revelação com o algo autobiográfico “São Paulo Sociedade Anônima” (1965), Person aliou-se a Bernardet para realizar “O Caso dos Irmãos Naves”, uma corajosa denúncia da tortura em crescente uso pelo regime militar a partir de um episódio de violência oficial atroz ocorrida em 1937, no início do Estado Novo varguista, contra dois irmãos comerciantes em Araguari, interior de Minas Gerais. O sucesso comercial e crítico do filme, protagonizado por Anselmo Duarte, John Herbert, Juca de Oliveira, Lélia Abramo e Raul Cortez, incentivou um de seus produtores, Mario Civelli (1923-1993), a estimulá-los a uma nova, imediata e ainda mais encorpada realização.
Com a sacada de Person de que a dinâmica da oportunidade não recomendaria o lento processo de desenvolvimento de um argumento original, Bernardet conta que foi à tradicional Livraria Brasiliense, no centro de São Paulo, e comprou “uns cinco ou seis livros. Escolhi ‘(A Hora d’) Os Ruminantes, né?”. O recém-lançado romance de Veiga narra, em tom algo kafkiano, a progressiva ocupação de uma cidadela pacata fictícia por homens estranhos, cachorros e bois.
“Veiga pertence a essa corrente latino-americana do realismo mágico, mas nós, não”, explica Bernardet. “Nós éramos, assim, absolutamente políticos”! “A ideia era de abandonar a tortura física e de passar por uma pressão social e psicológica sobre a população, sobre a comunidade”. Jogando com o nome do primeiro general-presidente então no posto, ainda com pose pseudodemocrática, e de seu Ministro da Guerra linha dura e logo sucessor, o roteirista lembra: “A gente chamou ‘Os Naves” de um ‘filme Castelo Branco’, e ‘Os Ruminantes’ passamos a chamar de o ‘filme Costa e Silva’.
Inspirada ainda segundo ele pelo drama japonês "Juramento de Obediência", de Tadashi Imai, vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim de 1963, a dupla desenvolveu o roteiro contando “quatro vezes a mesma história”. “Só a repetição possibilita chegar a um certo nível de abstração, que é a estrutura social e a opressão”, argumentou. Em julho de 1967, o roteiro estava pronto. Acelerou-se o processo de produção, com filmagens previstas em cores (de custo mais elevado) e John Herbert. José Lewgoy, José Mojica Marins e Juca de Oliveira, entre outros, no elenco. Três meses depois, pressionado pelas preocupações de sua mulher com a saúde dele, Civelli cancelava sua participação.Até sua morte precoce, num acidente de carro em 1976, Person batalhou para realizar “A Hora dos Ruminantes”. Na esteira do sucesso de crítica nos EUA de “O Caso dos Irmãos Naves”, tentou sem sucesso conquistar produtores americanos. Uma das revelações do documentário é como, em 1972, um general brasileiro instou Harry Stone, da Motion Picture Export Association of America, a boicotar Person. Outra novidade é a possível venda dos negativos coloridos do filme, repassados por Civelli ao cineasta, “a jovens de um grupo clandestino de esquerda”.Impossibilitado de realizar “o filme que era, realmente, a continuidade da minha obra”, Person ainda dirigiu duas comédias, a rural “Panca de Valente” (1968) e a pop “Cassi Jones, O Magnífico Sedutor” (1972), e o curta “Procissão do Mortos” do filme de episódios “Trilogia do Terror” (1968), este com ecos evidentes de “A Hora Dos Ruminantes”, antes de abandonar o cinema, ganhar a vida em publicidade e dedicar-se com sucesso ao teatro (El Gran de Coca-Cola; Orquestra de Senhoritas) fundando o Auditório Augusta. Para Bernardet, a filmagem abortada foi seu “maior fracasso”.Uma das forças de “Os Ruminantes” é esboçar uma visão de um filme para sempre invisível. “A Hora dos Ruminantes”, de Luiz Sérgio Person e Jean-Claude Bernardet, pode ser vislumbrado como um dos potenciais ápices do ciclo de alegorias do cinema brasileiro de fins dos anos 1960, como definido por Ismail Xavier em estudo clássico, ao lado de filmes como “Macunaíma” (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, e “Brasil Ano 2000” (1969), de Walter Lima Jr. No documentário, como na linha final do romance de Veiga, “as horas voltavam, todas elas, as boas, as más, como deve ser“.