Por Amir Labaki
Há muito
para se divertir e aprender assistindo a “Lorne”, o documentário de
Morgan Neville, já em streaming para aluguel, sobre o criador de
“Saturday Night Live” (SNL) o mais que cinquentenário programa de
esquetes cômicos da NBC, seja você fã, indiferente ou (para seu azar e
minha surpresa) o desconhecer. Sua 51ª temporada, encerrada em maio
último, pôde ser assistida simultaneamente no Brasil, à meia-noite e
meia (0h30) da madrugada de sábado para domingo, pela plataforma de
streaming Universal+ e pelo canal de TV por assinatura Universal
Première.
O filme logo na abertura celebra o
inédito acesso obtido a seu “evasivo” criador e produtor, o canadense
Lorne Michaels, hoje aos 81 anos. As câmeras de Neville o acompanham
pela primeira vez nos bastidores da produção do programa, em seu retiro
regular numa fazenda no estado do Maine, em entrevistas realizadas no
decorrer de um ano. Uma vasta lista de entrevistados vão completando o
mosaico, do músico e compositor Paul Simon, um de seus melhores amigos e
antigo vizinho, a estrelas da comédia reveladas por SNL, de Chevy Chase
a Tina Fey, de Steve Martin a Maya Rudolph, de Kristen Wigg a Mike
Meyers.
Como se não bastasse o infindável
arquivo disponível, da história da televisão americana e canadense a
“home movies” da família judaica (Lipowitz é o sobrenome pré-artístico)
da periferia de Toronto, Neville recria em animação alguns episódios
pessoais e profissionais da vida do produtor. Não é a única forma do
prolífico documentarista, por trás de outros retratos de personalidades
televisivas como Anthony Bourdain, Fred Rogers e Steve Martin, escapar
do convencional.
“Lorne” se estrutura a partir de
um comentário metacinematográfico escrito por Neville e narrado pelo
comediante Chris Parnell, naturalmente egresso (1998- 2006) do elenco de
SNL. A narração busca cumprir três funções principais, explicitando o
processo de gravação do filme, organizando informações sobre a dinâmica
semanal de preparação dos programas e discorrendo sobre opiniões a
respeito de seu personagem. Esta última resulta a mais dispensável.
A longevidade de sua certeira
criação encurta as curvas da carreira de Lorne. Iniciado como ator e
roteirista cômico em emissoras de seu Canadá natal, para onde retornou
brevemente após uma primeira temporada sem sucesso nos EUA, Michaels
deve seu grande salto aos especiais televisivos para a CBS que produziu
entre 1973 e 1975 para a atriz Lily Tomlin (Nashville, Como Eliminar Seu
Chefe; Homem-Aranha no Aranhaverso). Além de valer-lhe o primeiro dos
24 prêmios Emmy (o Oscar da TV americana), foi o catalisador do convite
para renovar as noites de sábado da concorrente NBC, até então agendadas
para reprises do talk show de Johnny Carlson.
Em 11 de outubro de 1975 nascia o
então NBC’s Saturday Night (rebatizado SNL em 1977), nos mesmos moldes
do atual programa: uma sucessão de esquetes cômicos, interpretados ao
vivo, em frente de um auditório, por um elenco fixo reforçado por dois
convidados semanais, uma celebridade, que abre tudo como um monologo, e
um músico, quase sempre ao final. “O que parecia ousado em 1975 acabou
sendo o que o manteve vivo”, sustenta Michaels.
Nas celebrações dos 50 anos de
SNL, Jason Reitman dirigiu uma comédia sem grandes voos sobre aqueles
tempos pioneiros, “Saturday Night – A Noite Que Mudou a Comédia” (HBO
MAX). Lorne se manteve firme ao leme por quase todo este meio século. Em
1980, a NBC rompeu-lhe o contrato, insatisfeita com os resultados após
uma mudança de elenco que o desfalcou de Chevy Chase, Dan Aykroyd e John
Belushi. Chamado de volta pela emissora para criar quatro anos depois
outra atração, em 1985 Michaels retornava para não mais deixar o
controle sobre sua criação.
Sem muito a narrar sobre a vida
profissional, “Lorne” tampouco encontra muitas brechas para discorrer
sobre sua personalidade e seu cotidiano. O produtor metódico dorme da 4h
ao meio-dia, é impontual nos compromissos e atencioso com as crises
pessoais da equipe. É algo lacônico, não sujeito a ataques de raiva, e
janta religiosamente às terças-feiras com o convidado da semana e parte
do elenco.
A imutabilidade de sua rotina e a o
controle minucioso sobre a produção de cada programa permitem a Neville
captar o processo de criação de SNL. Tudo acontece no arranha-céu no
número 30 da Rockefeller Plaza em Nova York, com ensaios e show sediados
em seu estúdio H. (Quem pensou no hilário seriado “Um Maluco na TV”,
“30 Rock” no original, criado por Tina Fey e disponível pela Netflix,
bingo!).
Os 21 programas de cada temporada
seguem a mesma agenda. Uma primeira reunião com a celebridade convidada,
elenco e roteiristas no fim da tarde de segunda-feira. Escrita até a
leitura de mesa das quartas, quando se reduzem para cerca de 40 os
esquetes potenciais. O último ensaio geral acontece apenas três horas e
meia antes da transmissão das 23h30 dos sábados, assistido por Lorne de
baixo da arquibancada do público. Apenas meia hora antes de entrar ao
ar, ele dá a palavra final sobre os 10 ou 12 esquetes que ficam e em
qual ordem.
“O que é engraçado?”, pergunta-lhe
Morgan Neville. “É uma dessas coisas como pornografia. Você sabe quanto
vê”, resume Lorne Michaels. É bom ouvi-lo. Desde tempos muito menos
caretas ele aperfeiçoa a fórmula.