Por Amir Labaki
Há
cinquenta anos “Os Doces Bárbaros”, o show com Caetano Veloso, Gal Costa
e Gilberto Gil e Maria Bethânia, estava na estrada, originando um álbum
essencial e um dos principais documentários brasileiros, para além do
registro meramente musical. Na abertura de um texto para o press-book da
obra dirigida por Jom Tob Azulay, Caetano resume tudo: “’Os Doces
Bárbaros’ não é apenas o documentário de um lindo acontecimento, é um
lindo filme”. Não deixe de vê-lo ou revê-lo, se possível em salas (dica
de programação), para compreender devidamente seu impacto, ou mesmo em
streaming, pelo Itaú Cultura Play.
Numa entrevista recente, Azulay
relembrava a origem das filmagens: “A proposta inicial de ‘Os Doces
Bárbaros’ era talvez até, eu diria, nem de um documentário. Era de um
registro quase, com esse grupo que tinha acabado de ser criado por Gil,
Gal, Caetano e Bethânia, com o objetivo de comemorar os dez anos de
carreiras individuais de cada um. (...) Numa sexta-feira, eu fui
convidado para filmar um ensaio geral deles, que seria um último
ensaio”.
Tivesse sido apenas um “registro”
do espetáculo e dos bastidores do show já teria sido histórico. O
repertório incluía nada menos que cinco novas parcerias entre Gil e
Caetano, com Gil compondo ainda outras quatro canções. Entre as
primeiras, “São João, Xangô Menino” e “Eu e Ela Estávamos Ali Encostados
na Parede”, a partir de um trecho do romance “PanAmérica”, de José
Agrippino de Paula. Brilham entre as apenas de Gil nada menos que
“Esotérico”, “Pé Quente, Cabeça Fria” e “O Seu Amor”. O roteiro musical
apresentava ainda canções como “Fé Cega, Faca Amolada”, de Milton
Nascimento e Ronaldo Bastos.
A ausência de outra canção inédita
inicialmente planejada, “Como são lindos os chineses” de Péricles
Cavalcanti, faz parte da história invisível ditada pela censura. O
pesquisador Luiz Abrahão prepara-se para lançar uma radiografa desse
embate e de muito mais em “Mistério Sempre Há de Pintar Por Aí – Uma
História dos Doces Bárbaros” (no prelo), com prefácio de Azulay, cuja
leitura aguardo com ansiedade.
Há, portanto, o que não se ouve e
não se vê em “Os Doces Bárbaros”. Mas é imenso o que está lá. Na mesma
entrevista, Azulay foi ao ponto: “Inicialmente eu achava que estava
fazendo apenas um trabalho só sobre esses quatro artistas e, na verdade,
(...) eu percebi que eu tinha efetivamente feito um filme sobre os anos
1970”.
Não há na declaração qualquer
exagero. O documentário explicita a essência do projeto e da conjuntura
em que se desenvolveu. Era a contracultura arrostando a ditadura
militar, então a pleno vapor. O quarteto fazia um espetáculo libertário,
dionisíaco, pós-tropicalista, em contraste com a repressão à solta pelo
Brasil.
Um episódio policial escancarou
essa tensão em meio à turnê, iniciada em fins de junho de 1976 em São
Paulo. No início de agosto, em Florianópolis, Gilberto Gil e o
bateirista Chiquinho Azevedo foram presos por porte de maconha. A câmera
tudo registrou, até mesmo a audiência na Primeira Vara Criminal da
cidade catarinense. Ë inevitável o eco entre essa detenção de Gil e sua
prisão, com Caetano, no final de dezembro de 1968, na razia autoritária
pós-AI-5. (Veja o inesquecível testemunho de Caetano sobre o cativeiro
militar que os forçou ao exílio londrino no documentário “Narciso em
Férias”, de 2020, de Renato Terra e Ricardo Calil).
Editado magistralmente por Eunice
Gutman e Luis Carlos Saldanha, “Os Doces Bárbaros” traduz em filme esse
embate entre o belo e a fera, articulando e alternando-se entre os
registros (em 16mm, ampliados para 35 mm nos EUA para a distribuição) de
palcos e tribunal, camarins e delegacia, quartos de hotel e clínica
psiquiátrica, num mosaico único de artistas brasileiros encantando um
país sob jugo autoritário. Como entoavam na canção composta por Gil a
contrapelo do “slogan da ditadura”, “O seu amor/Ame-o e deixe-o/Livre
para amar”.
Caetano sacou bem: “a montagem
concorre para a criação de um clima particular em cada número. E cada
número tem seu clima cinematograficamente encontrado”. De fato, o brilho
de cada interpretação e a intensidade das interações imantam o álbum,
mas podem ser apenas como que testemunhadas plenamente no filme. O coro
em “Os Mais Doces Bárbaros” e o Bethânia quase toda em close em “Um
Índio”, a voz sempre cristalina de Gal e a coreografia contagiante de
Gil, mas também Bethânia metralhando profeticamente a cultura da
celebridade e Gil fitando ironicamente a câmera durante o teatro da
audiência no tribunal.
Na cachoeira da memória se sucedem
tomadas, números, cenas cintilantes. Carrego comigo, depois de exaurir o
álbum de tanto rodar na vitrola, a primeira sessão de “Os Doces
Bárbaros” quando de sua estreia em meados de 1978 em São Paulo. Em 2004
tive o privilégio de exibi-lo no É Tudo Verdade para novas gerações,
restaurado com o retorno de cenas antes censuradas e som remasterizado.
Dez anos antes, em 1994, a
Mangueira reafirmava seu legado em desfile na avenida. Em 2002, alto
astral, altas transas, lindas canções, o quarteto voltava a se reunir em
shows serenamente celebratórios, documentada por Andrucha Waddington em
“Outros (Doces) Bárbaros” (2004). Agora, meio século vivido, tudo ainda
é tal e qual, e, no entanto, nada é igual.