Por Amir Labaki
A
mais completa versão da inacabada adaptação do “Dom Quixote” de Miguel
de Cervantes dirigida por Orson Welles (1915-1985) está a caminho. O
anúncio envolvendo a colaboração de quatro cinematecas europeias foi
feito durante uma conferência internacional, no último dia 22, durante a
40ª edição do festival Il Cinema Ritrovato, em Bolonha, Itália.
“A
Filmoteca Española (em Madri), a Cinémathèque Française, a Cineteca
Nazionale italiana (em Turim) e o Filmmuseum de Munique impulsionam o
projeto”, afirma na abertura o release oficial que seguiu o simpósio. A
“reconstrução da obra inacabada” será dirigida por Esteve Riambau,
historiador e cineasta espanhol, ex-diretor da Filmoteca da Catalunha e
autor de quatro livros sobre o diretor de “Cidadão Kane” (1941),
incluindo “Orson Welles En El País de Don Quijote”, escrito em
colaboração com Carlos F. Heredero e base do roteiro do documentário
homônimo dirigido em 2000 por Carlos Rodríguez para o Canal + francês.
Welles
trabalhou em sua adaptação em constante mutação das primeiras filmagens
ainda sem compromisso, em 1955 em Paris, até variações na montagem de
trechos do vasto material às vésperas de sua morte, em 1985. O essencial
das filmagens aconteceu no México, em 1957, na Itália, em 1959, e na
Espanha, em 1964 e 1966.
A
primeira das versões projetava um telefilme para a CBS americana. Como
contou Simon Callow no terceiro volume de seu ainda inconcluído projeto
biográfico de Welles, ele “teve a ideia inspirada de lançar Dom Quixote e
seu valente escudeiro, Sancho Pança, no mundo moderno. Ele o intitulou
‘Don Quixote Passes By’ (Dom Quixote Passa Por Perto)”. Filmando no Bois
de Boulogne parisiense, Welles escalou como intérpretes,
respectivamente, Mischa Auer e Akim Tamiroff, com quem havia há pouco
trabalhado no thriller “Grilhões do Passado” (1955). O chamado de
Cervantes nada foi abalado pela recusa da emissora dos EUA.
Na
década seguinte, Welles foi rodando o principal de seu mutante
“Quixote”, entre trabalhos de ocasião como ator (Estranha Compulsão,
1959, Os VIPs, 1963) e outras produções na direção (A Marca da Maldade,
no breve retorno a Hollywood, 1958, O Processo, de volta ao autoexílio
europeu, 1963). Mantendo no México a mesma premissa do confronto da
dupla central com a sociedade contemporânea, ele se inseriu na narrativa
contando o entrecho para uma Dulcinéia vivida pela atriz infantil Patty
McCormack, com o sempre fiel Tamiroff como Sancho e o exilado espanhol
Francesco Reiguera substituindo Auer no papel do cavaleiro da Triste
Figura.
Para filmar na
Espanha novas cenas, emplacou uma série documental para a emissora
italiana RAI, “Nella Terra di Don Chichiotte” (filmada em 1961,
transmitida em 1964), percorrendo o país num “travelogue” ao lado da
mulher, a atriz Paola Mori, e uma das filhas, Beatrice. Até 1972,
segundo o especialista Joseph McBride, Welles estava enviando seu
diretor de fotografia Gary Graver para “filmar material em cores de
moinhos de vento em Sevilha”.
O
próprio cineasta lhe explicava as alterações no projeto: “Continuo
mudando minha abordagem; o tema me domina e passo a ficar insatisfeito
com as filmagens antigas (...) Agora, vou transformá-lo em um ensaio
cinematográfico sobre a poluição da velha Espanha”. Como bem definiu
Callow, “Dom Quixote” acabara se transformando em “seu caderno de notas,
seu diário, sua carta cinematográfica para si mesmo”.
Depois
da morte de Welles, afora cenas em vários documentários, por duas vezes
edições do material bruto de “Quixote” chegaram às telas. No Festival
de Cannes de 1986, uma sessão especial apresentou uma montagem
assumidamente fragmentária de 40 minutos compilada pela Cinémathèque
Française. Seis anos depois, o cineasta espanhol Jesús Franco lançava
seu longa-metragem “Dom Quixote de Orson Welles”, classificada como
“fiasco” por McBride e dissecada em sua confusa e incompleta edição de
materiais pelo crítico Jonathan Rosenbaum.
Em
entrevista para a Ray Kelly, editor do site especializado Wellesnet,
Estele Riambau explicou passo a passo como se dará a “reconstrução”: “A
primeira fase do projeto, neste momento, consiste em estudar o roteiro
(mais de 1000 páginas dispersas por vários arquivos – AL) e digitalizar
todos os materiais existentes — cerca de 70.000 metros. A segunda, no
próximo ano, será o cruzamento do roteiro com as cenas existentes. A
terceira, em 2028, será a montagem das imagens seguindo uma ordem
filológica o mais próxima possível das intenções de Welles”.
Numa
estocada ao presente projeto de reedição com novas filmagens de
“Soberba” (1943), Riambau frisa: “Nossa linha vermelha, enquanto
arquivos fílmicos públicos fiéis ao código de ética da FIAF (Federação
Internacional de Arquivos Fílmicos), será não adicionar nem recriar as
cenas faltantes”.
Numa
entrevista de 1964 a críticos espanhóis reproduzida pela revista Cahiers
du Cinéma, Orson Welles sustentava que sua adaptação, “quase
terminada”, seguia “o mesmo espírito de Cervantes”; o que o deixava
“nervoso” era lançá-la. “Este será um filme execrado”, cravava. Seu
prognóstico será finalmente testado em 2029.