Por Amir Labaki
Se o presente do cinema raramente
empolga, a história do filme ainda tão desconhecida, insufla entusiasmo.
Este bem poderia ser o lema do principal festival do patrimônio
cinematográfico, Il Cinema Ritrovato (o cinema redescoberto), que
alcança agora sua 40ª edição em Bolonha, Itália. Entre os próximos dias
20 e 28, mais de 540 títulos celebram a marca do evento organizado pela
Cinemateca de Bolonha.
O festival abre neste sábado sua
primeira noite oficial de projeções na Piazza Maggiore com o centenário
do drama silencioso “Aurora”, o primeiro filme americano do mestre
alemão F. W Murnau (1888-1931), apresentado com nova partitura. No
poster desta edição, Barbara Stanwyck (1907-1990) nos lança seu
desafiador olhar, anunciando uma impressionante retrospectiva de filmes
dirigidos por um “who’s who” da Hollywood clássica, de Frank Capra a
Billy Wilder, de Howard Hawks a King Vidor.
A produção dos estúdios americanos
não poderia faltar ao evento, mas seu arco muito o transcende, com
títulos dos cinco continentes deste mais de um século de cinema. “Qual
é, então, a fórmula por trás de Il Cinema Ritrovato?, indaga o editorial
do catálogo desta edição, para logo responder. “Na verdade, não existe
fórmula. Existe conhecimento, experiência e habilidades profissionais,
mas acima de tudo, a capacidade de “escutar” os próprios filmes”.
Outra questão essencial é logo
abordada, de frente. “O que há de errado com grande parte do cinema
atual? Os filmes são feitos com o sucesso financeiro como objetivo
principal, e muitos produtores se tornaram pouco mais do que executivos
de corporações financeiras, convencidos de que possuem uma fórmula
infalível para fazer filmes de sucesso: repetir indefinidamente modelos
que já funcionaram, produzindo assim os mesmos filmes repetidamente. No
passado, o cinema não seguia fórmulas. Ou, se seguia, era esta:
surpreender e correr riscos”.
Como? Prossegue o editorial: “Esta
edição apresenta uma ‘dialética’ mais refinada entre o cinema
socialmente engajado e politicamente comprometido de certos grandes
nomes e o cinema delicado, popular, vibrante e despreocupado de outros
mestres”. Assim, de um lado, retrospectivas do espanhol Juan Antonio
Bardem, do italiano Luchino Visconti (nos 120 anos de seu nascimento), e
do indiano Ritwik Ghatak. De outro, mostras do japonês Daisuke Ito,
revolucionário maior desde a era muda do “jidai-geki”, o cinema de época
nipônico, e do americano Mitchell Leisen, mestre da “screwball comedy”
(Meia-Noite, 1939; A Porta de Ouro, 1941).
A atenção da curadoria transcende o
escopo das produções destinadas ao circuito tradicional de salas. Um
ciclo destaca duas filmografias virtualmente desconhecidas, realizadas a
partir dos anos 1960, essencialmente em curtas-metragens no formato 16
mm: os filmes da cineasta experimental sueca Gunvor Nelson (1931-2025) e
do diretor francês de documentários científicos Éric Duvivier
(1928-2018).
Como é tradição em Bolonha, os
focos vão além de cineastas, celebrando também o cinema dos intérpretes:
a citada Stanwyck, mas também a franco-americana Joséphine Baker
(1906-1975), atriz, cantora e dançarina, mas também militante
antinazista e pró-direitos civis. Todo um ciclo recorda os ídolos das
matinês do público feminino, como Rodolfo Valentino, Wallace Reid e
Richard Barthelmess.
Duas mostras regulares continuam a
revisitar as origens. Em O Século de Cinema é a vez da safra de 1906 e,
em Há Cem Anos, da produção de 1926, com destaque para uma das
pioneiras sinfonias cinematográficas da metrópole, “Somente As Horas” do
brasileiro Alberto Cavalcanti, ao lado de títulos não menos essenciais
como “Anémic CInéma, de Marcel Duchamp, e a animação por silhuetas “As
Aventuras do Principe Achmed”, de Lotte Reiniger e Carl Koch.
Entre as homenagens dos Eventos
Especiais, outra presença brasileira: Kleber Mendonça Filho apresenta o
documentário “Crítico” (2008) e “Bacurau” (2019). Na lista de cineastas
em atividade igualmente celebrados estão o francês Arnaud Desplechin, o
americano Bill Morrison, o filipino Lev Diaz, a britânica Lynne Ramsay, e
“last but not least”, Martin Scorsese e Wim Wenders. Também homenageada
será a atriz francesa Irène Jacob (A Dupla Vida de Véronique) e um foco
especial destaca o Projeto Pelechian, dedicado ao restauro da
filmografia do documentarista armênio Artavaszd Pelechian, que teve
lançamento mundial no recente Festival de Cannes.
Por falar em documentários, a
seção especializada de Il Cinema Ritrovato recupera a faceta cineasta do
grande fotodocumentarista franco-americano Elliott Erwitt (1928-2023) e
apresenta a cópia restaurada de “A Luta” (1974), de William Graves,
sobre o combate pelo título mundial dos pesos-pesados em 1971 entre
Muhammad Ali e Joe Frasier. Entre os lançamentos, eis novos retratos de
James Dean, Jean Coctau, Marina Vlady e Marilyn Monroe.
Por fim, no coração da maratona de
Bolonha brilham os títulos recém-restaurados. O autêntico festival de
cinematecas inclui neste ano de uma homenagem ao pioneiro italiano
Enrico Guazzoni (1876-1949), diretor em 1913 da primeira versão do épico
romano “Quo Vadis?” a “Boogie Nights: Prazer Sem Limites” (1997), o
segundo longa-metragem do oscarizado Paul Thomas Anderson. O principal
restauro latino-americano é “Muertes a Plazo Fijo” (1950), um policial
da Cuba pré-revolucionária dirigido por Manolo Alonso. Se estivesse por
lá, confesso que por nada perderia a deslumbrante versão animada de
“Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll, produzida por Walt
Disney em 1951 com direção Clyde Geronimi, Hamilton Luske, Wilfred
Jackson. Recordar é viver.