Por Amir Labaki
A presente 79ª edição do Festival
de Cannes, aberta na terça-feira (12) pela comédia francesa “La Vénus
Électrique" de Pierre Salvadori, marca um quarto de século sob a direção
artística de Thierry Frémaux. Nada supera entre suas contribuições,
como a maior abertura para o cinema de gêneros, ou a progressiva
conversão da mostra paralela Un Certain Régard num ciclo competitivo
para novos diretores, do que a criação de Cannes Classics, uma seleção
anual dedicada ao cinema de repertório. A origem é evidente: Frémaux
trouxe a Cannes sua experiência de curador do Instituto Lumière de Lyon,
em cuja direção se manteve por todo este tempo.
Já em sua 22ª edição, Cannes
Classics renova um pouco seu perfil neste ano. A seleção principal, com
21 títulos, entre filmes restaurados e documentários sobre cinema,
reafirma seu perfil tradicional, de uma espécie de festival de
cinemateca. A novidade desta vez é a inclusão de cinco produções
inéditas de pegada mais experimental.
São dois longas e três
curtas-metragens. Os primeiros retratam vidas femininas. Em “L’Âge d’Or”
(A Idade do Ouro), Bérenger Thouin combina encenações e trechos de
arquivo para reconstituir a trajetória de Jeanne Lavaur, das origens
modestas aos sonhos de nobreza. “De uma guerra a outra”, como detalha a
sinopse, “da Paris dos loucos anos 20 ao Brasil, seu caminho cruzou a
História e abraçou o mundo”.
Por sua vez, em “Une Vie
Manifeste” (Uma Vida Manifesto) Jean-Gabriel Pérot (Regresso a Reims,
2021) recupera a trajetória da francesa Michèle Firk (1937-1968) entre a
militância revolucionária e a paixão cinematográfica. Comunista de
carteirinha desde a juventude, colaboradora da revista Positif, Firk
engajou-se na luta pela independência da Argélia, pela consolidação da
Revolução Cubana e numa frustrada experiência guerrilheira na Guatemala
de fins dos anos 1960, conhecendo fim trágico. Uma personagem que
Jean-Claude Bernardet também teria amado destrinchar.
A seleção de curtas reúne três
ficções de um mestre renomado e dois jovens talentos. O chinês Jia
Zhangke lança “Du Ling Zhi Ying” (Sombra de Turim), estrelado por sua
musa Zhao Tao. As revelações são a estreia em filme do artista
conceitual americano Dustin Yellin, “Goodnight Lamby” (Boa-noite,
Lamby), produzido por Darren Aronofsky (A Baleia 2022), e “Zamine Bazi”
(Playground), do cineasta iraniano Amirhossein Shojaei.
O carro-chefe entre os
documentários sobre cinema é um novo episódio inédito da estupenda nova
série de Mark Cousins, Depois de iluminar os pioneiros do cinema
não-ficcional da era silenciosa, incluindo o brasileiro Alberto
Cavalcanti, o impacto da chegada do som, os marcos contra e pró os
fascismos do período da Segunda Guerra e as renovações do cinema direto
mundo afora, “The Story of Documentary Film (The 1970s)” (A História do
Cinema Documentário – Os Anos 1970)” mergulha por duas horas num novo
período de desbravadores de fronteiras estéticas.
Um dos mais inquietos e influentes
documentaristas de todos os tempos, o francês Chris Marker (1921-2012),
ganha um novo retrato panorâmico todo seu em “Nostalgia For The Future”
(Nostalgia Para o Futuro), do diretor belga Brecht Debackere. Também
celebrados por documentários biográficos são dois atores, o americano
Bruce Dern (Dernsie) e o francês Coluche (Mon Coluche A Moi), e dois
cineastas, o britânico David Lean (Maverick) e o italiano Vittorio De
Sica (La Vita In Scena).
De Sica tem ainda um de seus
clássicos, “Duas Mulheres” (1960), revisitado entre os títulos em
versões restauradas. A cosmopolita seleção de tesouros redivivos das
cinematecas incluem de “A Casa do Anjo”, do argentino Leopoldo Torre
Nilsson, a “O Homem do Ferro” (1981), do polonês Andrzej Wajda; de
“Adeus, Minha Concubina” (1991), do chinês Chen Kaige, a “A Esperança”
(1940), uma das raras incursões fílmicas do escritor André Mauraux,
adaptando seu próprio romance; de uma raríssima versão estendida de “A
Saga do Judô” (1943), do japonês Akira Kurosawa, a “Tilaï”, do pioneiro
de Burkina Faso Idrissa Ouedraogo.
O único e grande retorno aos
clássicos do documentário reverencia o quinteto de curtas essenciais do
armênio Artavazd Pelechian. Aos 88 anos, o formulador da “montagem
distancial”, é o maior dos renovadores cinematográficos a marcar
presença na Croisette, para o lançamento do “Projeto Pelechian”.
Referências centrais para realizadores como o americano Godfrey Reggio
(Koyanisqatsi, 1982) e o brasileiro Eryk Rocha (Rocha Que Voa, 2000),
“Terra das Pessoas”, “O Início”, “Nós”, “Os Habitantes” e “As Estações”,
rodados entre 1969 e 1975, reafirmam sua originalidade em novas cópias.
É como se redescobríssemos o cinema a cada mergulho na obra de
Pelechian.