Por Amir Labaki
É como uma jornada de
análise e debate do documentário como campo privilegiado para a expansão
do cinema que acontece neste sábado, dia 11, em São Paulo, a 23ª
Conferência Internacional do Documentário. Correalizado pelo 31º É Tudo
Verdade e pela Cinemateca Brasileira, sede das mesas durante todo o dia,
com entrada franca, o encontro investiga trajetórias que desafiam
fronteiras estéticas e geográficas a partir do cinema não-ficcional.
Na
mesa de abertura, às 9h30, o foco concentra-se na obra e vida do
primeiro cineasta brasileiro a fixar sua múltipla produção na história
do cinema, Alberto Cavalcanti (1897-1982). O ensaísta Carlos Augusto
Calil, um dos maiores especialistas em sua filmografia, apresenta em
“Cavalcanti: Obra Cigana” um sobrevoo de uma obra de incessante
originalidade e raríssimo escopo.
“Alberto
Cavalcanti deixou uma obra copiosa, como diretor, produtor, montador,
desenhista de som, roteirista, cenógrafo. Um verdadeiro polígrafo.
Destacou-se em todas essas especialidades e ainda era teórico do cinema e
famoso por suas palestras e conferências”, resume Calil na apresentação
ao encontro.
“Muitos testemunhos falam de seu
papel agregador no set de filmagem e das habilidades de liderança em
grupo”, recorda o atual presidente do conselho de administração da
Sociedade Amigos da Cinemateca. “Atuou no mundo todo, especialmente na
França, Inglaterra, Brasil, Itália, Espanha, Portugal, mas também na
Áustria e em Israel. Em cinema, televisão e teatro. Distribuía seu
talento em obras de não-ficção e de ficção”.
Cavalcanti
marcou com destaque, entre outros, a vanguarda do cinema mudo francês
(Rien Que Les Heures, 1926), a escola britânica de documentários em
torno da GPO (Coal Face, 1936), também lá as produções pioneiras dos
Estúdios Ealing (Went The Day Well?, 1942), e, em sua principal
experiência brasileira, liderou a fase áurea dos Estúdios Vera Cruz e
realizou, para a produtora independente Maristela, uma de suas
obras-primas, a comédia social “Simão, O Caolho” (1952). Calil vai
iluminar como o Brasil jamais devidamente o reverenciou.
Assim
como Cavalcanti, Eryk Rocha desenvolve um cinema de invenção, tanto
documental quanto ficcional, desde sua estreia com “Rocha Que Voa”
(2002), vencedor da competição brasileira do É Tudo Verdade daquele ano.
Membro do júri nacional do festival deste ano, Eryk vai conversar, na
masterclass conduzida a partir das 11h pela pesquisadora Andréa C.
Scansani, sua obra sempre inquieta, seja na pesquisa de processos
criativos (Glauber, seu pai, o Cinema Novo, premiado em Cannes, Jards
Macalé), quanto dos laços sul-americanos (Pachamama, 2008) e da
cosmogonia yanomami (A Queda do Céu, codireção de Gabriela Carneiro da
Cunha, 2024).
Dois jovens pesquisadores, a
brasileira Clara Bastos Marcondes e o russo Kirill Goriachok (via
internet), apresentam seus trabalhos em andamento, às 14h, na mesa
“Mulheres Sem Câmeras/Mulheres Com Câmeras”. Marcondes discorre sobre
“práticas feministas de reemprego de imagens”, em obras de diretoras
como Agnés Varda, Albertina Carri e Marcela Fernandez Violante. Por sua
vez, Goriachok aborda “além de Esfir Chub Chub e Elizaviêta Svílova,
mulheres ocultas que fizeram o documentário soviético nos anos 1930”,
como Lídia Stepánova, Archá Ovaniéssova e Olga Podgoriétskaia.
Celebrada
pela retrospectiva do festival deste ano e membro do júri
internacional, no marco de seu 80º aniversário e em plena atividade,
Vivian Ostrovsky dialoga, às 15h30 na mesa de encerramento, com a
curadora do ciclo, a cineasta Fernanda Pessoa. Será uma janela
privilegiada para conhecer melhor uma obra que, nutrida por registros
pessoais, arquivos diversos e “found footage”, há mais de 40 anos
desafia classificações.
“Para mim”, adiantou
Ostrovsky para Pessoa, “cinema experimental significa ter liberdade
total – liberdade de duração, de tema, de forma. (...) Fazer o que você
quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é
tanto sobre ser longe de uma indústria, mas sobre liberdade de criação.
De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais
padronizado, com poucas surpresas”.
O público do Rio
terá a rara oportunidade de ouvi-la, às 16h do domingo, dia 12, no
Estação Net Rio 5, numa mesa mediada pelos professores Andréa França e
João Luiz Vieira. Encontros marcados -até lá!