Por Amir Labaki
Três dos cinco indicados ao Oscar de melhor
documentário de longa-metragem já podem ser conferidos em streaming
antes da cerimônia de premiação do próximo dia 15. Coincidência ou não,
formam o trio rodado nos EUA. Dentre os 15 semifinalistas, havia apenas
mais um com cenário americano. É verdade que não tem sido a regra, com a
saudável internacionalização levada a cabo pela seção não-ficcional da
Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.
Um
deles é apontado como favorito por três publicações especializadas
americanas, IndieWire, The Hollywood Reporter e Variety. Disponível na
Netflix, “A Vizinha Perfeita” enfoca um caso criminal envolvendo a morte
da afro-americana Ajike Owens por um tiro de sua vizinha branca Susan
Lorincz num bairro predominante negro da Flórida. Racismo e uma polêmica
legislação estadual de defesa da própria propriedade estão ao centro,
mas o elemento distintivo é a construção pela diretora Geeta Gandbhir da
narrativa a partir principalmente dos registros das câmeras corporais
da polícia.
Premiada pela direção na competição americana
no Sundance do ano passado, Gandbhir é uma das personagens centrais do
Oscar deste ano. Ela também concorre na categoria de melhor curta
documental, ao lado da co-diretora Christalyn Hampton, por “O Diabo Não
Tem Descanso” (HBO MAX), sobre a resistência de uma clínica de abortos
em Atlanta, Georgia. Já fez com isso história.
Também na
HBO MAX se encontra “Alabama: Presos do Sistema”, de Andrew Jarecki
(indicado anteriormente por “Na Captura dos Friedman”, 2003) e Charlotte
Kaufman. A denúncia da crueldade das condições carcerárias numa
penitenciária daquele estado sulista é feita por registros gravados
clandestinamente por celulares de presos. O dispositivo remete
inevitavelmente, em outros tempos tecnológicos, a “O Prisioneiro da
Grade de Ferro (Autorretratos)”, de Paulo Sacramento, grande vencedor do
É Tudo Verdade em 2003.
De longe o mais intimista dos
cinco indicados é “Embaixo da Luz de Neon”, o infeliz título nacional
com que a Apple TV apresenta “Come See Me In The Good Light”, de Ryan
White. Com notável contenção, acompanha-se como um diagnóstico de câncer
impacta o cotidiano do casal de poetas Andrea Gibson e Megan Falley.
Não à toa venceu o prêmio de público ao estrear no Sundance no ano
passado e conquistou o prêmio principal no Cinema Eye Honors em janeiro
último.
Naquela mesma edição do Sundance, “Rompendo
Rochas”, dos iranianos Mohammadreza Eyni e Sara Khaki, foi o vencedor da
disputa internacional de documentários. A originalidade da janela que
abre sobre a opressão patriarcal no Irã deve-se à sua extraordinária
protagonista. Num vilarejo no noroeste do país, Sara Shahverdi é uma
parteira divorciada que circula com sua motocicleta em figurino
masculino batalhando pelas jovens e elegendo-se para a câmara municipal.
Sem dar spoilers, as formas de oposição radical que enfrenta são de
cair o queixo.
Por fim, “Mr. Nobody Against Putin” (O
Senhor Ninguém contra Putin) me parece o mais sólido e devastador dos
concorrentes, ganhando terreno após vencer no mês passado o Bafta (o
“Oscar” britânico). Seu protagonista e co-diretor, Pavel “Pasha”
Talankin, registra como a invasão da Ucrânia catalisou a militarização
da escola em que ensina e coordena eventos em sua cidade natal, a
pequena Karabash, no sudoeste da Rússia, junto aos Urais.
Sua
atividade adicional como responsável pela documentação em vídeo
permite-lhe que o material que grava ao mesmo tempo cumpra a encomenda
oficial de registro da doutrinação belicista obrigatória e alimente seu
projeto sigiloso de um documentário sobre a deturpação curricular da
propaganda autoritária de Putin. Sua cruzada audiovisual solitária
concretiza-se como o filme agora indicado ao se expandir secretamente
numa parceria internacional com produtores dinamarqueses e britânicos e
com o co-diretor americano David Borenstein.
A espiral é
de arrepiar, do roteiro de aulas “patrióticas” para professores a
respostas em “colas” para as filmagens com alunos, da fundação por Putin
de uma nova organização infantojuvenil inspirada em similar stalinista a
treinos militares para os estudantes. Simultaneamente, ex-colegas,
ex-alunos e familiares de discípulos de Pasha alimentam a cruel máquina
bélica no front.
A filmografia documental sobre as
atrocidades na Ucrânia tem chegado às telas com notável impacto, como o
vencedor do Oscar da categoria há dois anos, “20 Dias em Mariupol”, de
Mstyslav Chernov, disponível na Netflix. Muito menos comum, por enquanto
e compreensivelmente, é a radiografia da destruição de corações e
mentes na Rússia. “Mr. Nobody Against Putin” é seu primeiro clássico.
Com ou sem o prêmio máximo da Academia.