Por Amir Labaki
A despedida de raríssimos
cineastas provocou similares comoção e repercussão jornalística como a
do documentarista americano Frederick Wiseman (1930-2026) em 16 de
fevereiro último. Nada mais merecido. Em quase meio século e meia
centena de filmes, Wiseman desenvolveu uma obra insuperável em
coerência, sensibilidade e rigor no exame das interações humanas no
cotidiano das instituições, dos EUA essencialmente, mas também da
França, de “Titicut Follies” (1967) a “Menus-plaisir: Les Troisgros"
(2023).
A extensão de seu legado fez-se
espelhar de imediato pela emocionada sucessão de publicações em mídia
social por documentaristas mundo afora. “Adorava esse homem”, postou o
americano Alex Gibney (Um Táxi para a Escuridão, Oscar de 2008).
“Fazendo os filmes que queria fazer (bons e sim eram longos) até o fim.
Um jogador de tênis. E uma inspiração pra todos nós”.
Do México, Juan “Paco” Urrusti
sintetizou: “Morreu um gigante do humanismo”. “Meu mestre do coração”,
pranteou-o Kazuhiro Soda, um dos mais talentosos documentaristas do
Japão contemporâneo. Lembrando as honorárias premiações com o Leão de
Ouro de Veneza (2014) e com o Oscar (2017), raríssimos para cineastas
não-ficcionais, o ucraniano Vitaly Mansky destacou como “ele parecia
apenas oferecer viver ao lado de seus personagens”. “Muito obrigado,
Mr. Wiseman, por todos os mundos nos quais nos convidou a entrar”,
agradeceu a americana Megan Mylan.
“Wiseman sempre foi descrito como o
grande cineasta das instituições; e é isso que ele é, e muito mais”,
analisou o cineasta francês Nicolas Philbert, “devastado” pela perda do
amigo de quatro décadas, numa entrevista ao diário L’Humanité dois dias
depois. “Ele foi um cineasta da comédia humana, e também um cineasta do
não-evento, das pequenas coisas da vida. (...) Não há vilões de um lado e
apenas vítimas do outro. Há coisas e pessoas mostradas em sua
complexidade, nunca reduzidas a mera simplificação”.
Uma das chaves essenciais para a
excepcionalidade de sua obra foi naturalmente a modesta paciência de seu
método. Tive o privilégio de conhecê-lo do próprio Wiseman, em mais de
um quarto de século de convívio, iniciado durante um seminário
organizado por Betsy McLane em Los Angeles em 1998. Em síntese: unidade
de lugar como ponto de partida. Equipe mínima, com ele mesmo em geral
captando o som. De seis a oito semanas de filmagem, contando um período
de reconhecimento cotidiano mútuo, sem registros, entre ele e
personagens. Nada de entrevistas, encenações, situações encomendadas.
Cerca de um ano de montagem, de conhecimento, embate e organização
rítmica e narrativa do material bruto, no que ele mesmo definiu como uma
conversa “entre mim mesmo, a sequência em que estou trabalhando, minha
memória, valores gerais e experiência”.
Como detalho com maior espaço em
“É Tudo Cinema” (Imprensa Oficial, 2010), Wiseman nos honrou em 2001 com
sua primeira visita ao país para uma pioneira retrospectiva no É Tudo
Verdade. De sua monumental obra, então em meio de caminho, escolhemos a
dois exibir “Titicut Follies”, “High School”, “Law and Order”,
“Hospital”, “Juvenile Court”, “Welfare” e “Model”.
Os documentaristas João Moreira
Salles e Ricardo Dias distinguiram-nos com a condução de entrevistas
públicas de Wiseman, respectivamente, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Para um almoço prévio de apresentações no Rio, João tomou a generosa
iniciativa de convidar Eduardo Coutinho. Não creio exagerar que marcou
profundamente a todos a conversa entre Coutinho e Wiseman em torno de
ética e métodos de filmagem, a partir de “Titicut Follies”.
É importante e didático frisar,
como o fazia sempre Fred, que sua filmografia foi construída de forma
espartana e independente, apoiada sobretudo pela autodistribuição de
seus filmes pelo circuito de universidades americanas e por televisões
dos EUA e da Europa. Foi assim sempre, mesmo após o reconhecimento maior
à sua obra se estabelecer já neste século. A confiança constante de
seus filmes ao É Tudo Verdade conheceu novo ápice em 2010, com “La Danse
– Le Ballet de l‘Opéra de Paris” sendo um dos vencedores da competição
internacional.
“Ele sempre será uma das vozes
mais singulares e inesquecíveis do documentário”, consolou-me ninguém
menos que Bill Nichols, o maior teórico do cinema documental, num
comentário sobre minha enlutada reação em mídia social. Alguns dias mais
tarde, em certeiros dois parágrafos, Nichols disse tudo: “O New York
Times se referiu ao seu estilo ‘objetivo’, quando Fred nunca sustentou
ser isso. Ele tinha uma visão que se tornou ainda mais atraente e
comovente em sua produção final: ver o que está diante de nós e sentir
como as peças de uma determinada realidade interagem, colidem,
sintetizam, harmonizam e se unem de outras maneiras”.
“Acho seus últimos filmes
extremamente poéticos, repletos de um ritmo que ele redescobre em suas
filmagens e transmite ao mundo que testemunhou”, desenvolveu o autor do
clássico “Introdução ao Documentário”. “Não são objetivos, mas poéticos e
memoráveis/afetivos de uma forma que o jornalismo quase nunca consegue
ser. Wiseman era um poeta da realidade e é insubstituível. Sua perda,
após quase um século de vida, deixa um vazio que só podemos preencher
revendo todos os filmes que ele nos deu”. Assim seja.