Por Amir Labaki
Durante
o quase meio século da Guerra Fria (1945-1991) até campeonatos mundiais
de xadrez espelhavam a polarizada rivalidade planetária entre os EUA e a
então URSS. Ainda me lembro, quando menino, do frenesi midiático em
torno do mais simbólico torneio pelo título mundial sob aquele
antagonismo. Era 1972, em Reykjavík, Islândia, quando o americano Bobby
Fischer (1943-2008) derrotou o russo e campeão Boris Spassky
(1937-2025), interrompendo quase um quarto de século de domínio
soviético.
Rory Kennedy (Os
Últimos Dias no Vietnã) recupera brevemente aquela época nos primeiros
minutos de seu novo documentário, “A Rainha do Xadrez”, lançado no mês
passado no Festival de Cinema de Sundance e já disponível para streaming
pela Netflix. O autoritarismo e as restrições de oportunidades vigentes
nos países do bloco soviético ajudam a contextualizar o período de
formação da protagonista, a enxadrista húngara Judit Polgár, o maior
fenômeno feminino dos tabuleiros de todos os tempos.
Polgár
pulverizou tradições sexistas que desde sempre marcaram também o
universo do enxadrismo competitivo. Era algo que, quando aos cinco anos
se iniciou no jogo, irmanava os dois lados da Guerra Fria.
Bastam
duas citações destacadas por Kennedy. “Mulheres são péssimas jogadoras
de xadrez”, sustentava Fischer. “Acho que não são tão inteligentes”.
“Ela (Polgár) provou que as mulheres podem competir em alto nível. Isso
foi algo, falando francamente, que muitos de nós, inclusive eu mesmo,
não acreditávamos possível”, reconhece o ex-campeão Garry Kasparov,
nascido no Azerbaijão, então sob a URSS.
“A
Rainha do Xadrez” se estrutura dramaticamente a partir dos vários
capítulos da rivalidade Polgár/Kasparov, dois prodígios formados com
cerca de uma década de diferença de idade no ocaso da Cortina de Ferro. A
saga de Judit é ainda mais extraordinária, sendo treinada com suas duas
irmãs mais velhas, Sofia e Susan, também futuras grandes enxadristas,
dentro de um experimento de formação de “gênios” desde a infância por
seus pais, o húngaro László e a ucraniana Klara.
Seus
métodos heterodoxos abarcavam escolarização doméstica e treinamentos
sem pausas de xadrez por três períodos diários. “Nunca duvidei que o
experimento daria certo”, sustenta László para Kennedy. Klara
complementa: “Tabuleiro é barato”.
Acompanham-se
os principais marcos da carreira de Judit desde sua estreia aos 6 anos
em torneios. Ao lado das irmãs e da contemporânea Ildikó Mádl, fez
história aos 12 anos derrotando pela primeira vez a equipe feminina
soviética nas Olímpiadas de Xadrez de Tessalônica, Grécia, de 1988. No
mesmo ano, Judit assumia a liderança do ranking mundial feminino, jamais
perdendo o posto até a aposentadoria em 2014. Em 1991, aos 15 anos e 4
meses, ela se tornou a mais jovem Grande Mestre da história, superando o
recorde de, deliciem-se, Bobby Fischer.
Três
anos mais tarde, iniciava-se o duelo com Kasparov, ídolo maior de
Judit: o mais jovem campeão mundial, em 1985, aos 22 anos, detentor do
título, até 1993; líder do ranking global ininterruptamente até a
aposentadoria, em 2005. Foi um começo e tanto, no torneio de Linares,
Espanha, o “Wimbledon do xadrez”.
O
campeão estava em vantagem quando inexplicavelmente voltou atrás num
lance, apesar de ter soltado a peça, rompendo com uma das regras do
jogo. A partida prosseguiu, Kasparov venceu, mas seu gesto foi
registrado por uma câmera de TV. O escândalo explodiu, sem provocar
nenhuma punição. Dias depois, Judit o abordou no lobby do hotel: “Como
você pôde fazer isso comigo?”. A resposta de Kasparov foram três anos
sem falar com Polgár e uma arrogante cobrança de “bons modos” numa
entrevista televisiva.
O
documentário reconstitui, com didatismo sem diluir a tensão, as demais
partidas principais em que se confrontaram na década seguinte. O segundo
embate, em 1996, superou 6 horas e meia de duração, com ambos
desfilando o mesmo estilo agressivo. “Eu perdi pela pressão”, concedeu
Judit.
Em 2001, numa
revanche na mesma Linares, no 11º jogo entre eles, viria o primeiro
empate. Um período de treino conjunto e convívio familiar numa praia na
Croácia, à convite de Kasparov, aliviaria as tensões.
Em
Moscou, no ano seguinte, na abertura da 15ª partida, ambos alteraram as
tradicionais estratégias. Judit fez o que considerou sua melhor partida
e concretizou o sonho de infância, não apenas vencendo como se tornando
a primeira mulher a derrotar o líder do ranking.
“A
Rainha do Xadrez” alcança assim seu apogeu, com eficácia na construção
dramática a partir da “guerra dos sexos” e com até mais que isso na
árdua e dinâmica solução de como tornar cinematograficamente envolvente
um jogo tão estático e cerebral como uma partida de xadrez. Minimize-se,
portanto, a escorregadela numa das cartelas finais. Não foi em 2003,
após a vitória sobre Kasparov, mas sim em 1996 que Judit fez mais uma
vez história, como a primeira mulher a ingressar numa das dez posições
do topo do ranking, independentemente do gênero.
Nenhuma
enxadrista conseguiu repetir-lhe o feito. Às vésperas de completar
apenas 50 anos, em julho próximo, e mais de uma década após se
aposentar, a coroa ainda a Judit Polgar pertence.