Por Amir Labaki
O É Tudo Verdade – Festival
Internacional de Documentários realiza a partir da próxima semana, entre
os dias 3 e 13 de abril, sua 30ª edição, simultaneamente em salas de
cinema em São Paulo e no Rio de Janeiro, sempre com entrada franca,
apresentando ainda uma programação em streaming, no Itaú Cultural Play,
de 10 curtas-metragens brasileiros, entre os dias 14 e 30. Três décadas
são um piscar de olhos na História, mas uma marca rara para eventos
culturais, especialmente cinematográficos, ainda mais ininterruptos, no
país.
Quando foi fundado, em 1996, o
desafio era estabelecer pioneiramente uma janela anual privilegiada para
o público ter acesso à produção não-ficcional brasileira e
internacional, com ênfase nas novas safras e na apresentação de
retrospectivas históricas essenciais para ampliar o conhecimento quanto a
um riquíssimo filão cinematográfico até então marginalizado tanto pelo
mercado audiovisual quanto pelos estudos fílmicos aqui como mundo afora.
A aposta se baseava sobretudo em dois fatores: a vigorosa tradição
nacional de documentários e um novo impulso contemporâneo para esta
produção aqui e no exterior, na aurora da revolução digital.
Trinta anos passados, o
documentário conquistou uma proeminência inédita em mais de um século de
cinema. Os filmes não-ficcionais, assim como sua recente extensão no
formato seriado, expandiram sua produção e exibição, enraizaram-se no
cotidiano dos espectadores e tornaram-se focos destacados de cobertura
jornalística e de estudos acadêmicos. De todos e em toda parte, o
documentário ficou mais próximo.
Os avanços são inequívocos, mas
não se abrace um otimismo exagerado. As fontes de financiamento aos
documentários diversificaram-se, expandiram-se e encolheram, cá como lá,
em várias ondas apenas neste período. A exposição no circuito de salas
de cinema também cresceu e reduziu-se, mais recentemente enfrentando o
radical (e mediocrizante) impacto da crise do mercado exibidor em
consequência da trágica crise pandêmica de 2021 e 2022. A expansão das
plataformas de streaming, novos atores tanto na exibição como mais
timidamente na produção, ampliou o acesso também à não-ficção, mas muito
menos à produção autoral esteticamente mais sofisticada e com marcada
ênfase em gêneros como as histórias criminais reais e os retratos
artísticos de formato conservador. No caso brasileiro, é este um dos
fatores a clamar pela urgência de uma regulação do streaming, soberana e
comprometida com a diversidade da produção independente, como já
aplicada em mercados europeus mais rigorosos.
Festivais de cinema como o É Tudo
Verdade têm por missão dar visibilidade nobre ao documentário de
criação, do próprio país e do mundo. Neste ano, o programa apresenta 85
filmes rodados em 30 países, com mais de duas dezenas de produções
brasileiras inéditas, quinze das quais de longas-metragens brasileiros
(nove destes, saúde-se, dirigidos ou codirigidos por mulheres).
É, por sua vez, uma honra e uma
alegria poder apresentar nas sessões de abertura, em São Paulo no dia 2,
no Rio no dia 3, dois retratos, originais e distintos em forma, de
mulheres artistas que encantaram a cultura brasileira por mais de meio
século: respectivamente, “Ritas”, de Oswaldo Sampaio, sobre Rita Lee
(1947-2023), e “Viva Marília”, de Zelito Viana, sobre Marília Pêra
(1943-2015). Nas mostras competitivas e projeções especiais e fora de
concurso, a reunião nos títulos nacionais de obras realizadas por
cineastas consagrados e jovens revelações reafirma a vitalidade
histórica que originou e consolidou o próprio festival.
A arte e programas especiais
reverenciam dois dos maiores inspiradores e incentivadores da história
do É Tudo Verdade: Eduardo Coutinho (1933-2014) e Vladimir Carvalho
(1935-2024). No cartaz do festival, originado de um fotograma rodado por
Fernando Duarte sob direção de Coutinho, Vladimir segura a claquete das
filmagens originais em 1964 de “Cabra Marcado Para Morrer”, que se
tornaria o maior clássico do documentário brasileiro quando finalmente
retomado vinte anos depois da interrupção da produção pelo golpe
militar.
Uma nova projeção de “Cabra” não
poderia faltar entre as sessões do programa “Especial 30”, assim como
uma revisita à obra extraordinária de Vladimir Carvalho, em pleno luto
por seu recente desaparecimento, era incontornável na retrospectiva
brasileira deste ano. O foco em sala convida a assistir a íntegra de sua
produção de longas-metragens, nove ao todo, de “O País de São Saruë”
(1971) a “Giocondo Dias – O Ilustre Clandestino” (2020). A inventividade
de seu cinema, exclusivamente documentário, brilha também em seus
curtas-metragens, quatro dos quais apresentados pelo Itaú Cultural Play.
Destacada na coluna da semana
passada, a retrospectiva do cineasta britânico Humphrey Jennings
(1907-1950), com sua intensa criatividade sob fogo, ecoa na excelência
de uma seleção internacional em que lirismo e horror batalham num
planeta turbulento e conflagrado. Num verso de um de seus últimos
poemas, escreve Jennings: “Percebo na imagem cinza todas as cores que
antes estavam lá”. Há três décadas o É Tudo Verdade tem o privilégio de
partilhar como documentaristas fazem disso sua arte.