Por Amir Labaki, de Cannes
Exibido em sessão especial em Cannes na semana passada, “Jogo do Dinheiro” já desembarcou ontem nos cinemas brasileiros. Esse lançamento quase simultâneo funciona como uma metáfora do próprio processo de sincronização planetária do capitalismo digital discutido pelo thriller assinado por Jodie Foster.
Reconheça-se de pronto: “Jogo do Dinheiro” é uma fábula moral. Escrito por Jamie Linden, Alan DiFiore e Jim Kouf, seu roteiro atira ao mesmo tempo contra a ganância plutocrática, a fusão entre jornalismo e entretenimento e a passividade da maioria silenciosa.
George Clooney interpreta Lee Gates, o âncora de um swingado programa de TV sobre finanças e economia na fictícia FNN (algo como uma Bloomberg TV extravagante). Pense em Richard Quest, da CNN, ou, menos conhecido no Brasil, em Jim Cramer, da CNBC. Multiplique por cinco o histrionismo de ambos. Prazer, Lee Gates.
Durante o rotineiro programa ao vivo de todas as manhãs da semana, seu estúdio é invadido pelo jovem Kyle Budwell (Jack O’Connell, de “Invencível”). Com a namorada grávida, trabalhando por US$14 a hora como motorista de uma firma no Queens novaiorquino, e desesperado pela perda de toda sua poupança (US$ 60 mil) ao seguir uma dica de investimento de Gates, Kyle exige respostas sobre o conselho furado, não sem antes colocar uma jaqueta-bomba no apresentador.
A direção de Foster mantém o pique (quase sempre) alternando-se entre as várias pistas narrativas que se desenvolvem, com extensões para África do Sul e Islândia. Braço direito de Gates, a produtora Patty (uma contida Julia Roberts) tenta evitar o pior na transmissão ao vivo com seu âncora como refém, ao mesmo tempo em que comanda fora do ar uma investigação sobre o que diabos de fato fez sumir US$ 800 milhões da fictícia Ibis Capital comandada pelo suspeitíssimo Walt Camby (Dominc West). Enquanto Gates busca conquistar a confiança de Kyle, o esquadrão policial cerca o estúdio visando resolver a crise com o menor derramamento de sangue possível.
“Jogo de Dinheiro” aqui e ali se aproxima da tensão de “Um Dia de Cão” (1975) e ecoa o visionário frenesi antimidiático de “Rede De Intrigas” (1976), ambos de Sidney Lumet. Da Hollywood recente, dialoga mais com a exuberância de "O Lobo de Wall Street", de Martin Scorsese, do que com o didatismo à moda Freaknomics de "A Grande Aposta", de Adam McKay. Mas, no fim das contas, trata-se apenas de pegar o “vilão” -e este nem é o invasor do estúdio-, e não de condenar o "sistema", leia-se isto como se quiser.
O segundo filme a falar de dinheiro em Cannes 2016 concentra-se no andar de baixo da sociedade britânica, aposta em total despojamento e tem por alvo direto a falência do Estado de bem-estar social. “Eu, Daniel Blake” traz de volta à competição do festival o quase octagenário Ken Loach, mais uma vez em parceria com o roteirista Paul Laverty, com quem já conquistou a Palma de Ouro em 2006 com “Ventos da Liberdade”.
Loach recupera o foco e a contundência que perdera na última década. “Eu, Daniel Blake” carrega a marca semidocumental do melhor de sua obra, de “Kes” (1968) e “Vida em Família” (1971) a “Chuva de Pedras” (1993) e “Ladybird” (1994). Como neste último, reencena-se o embate entre os despossuídos e a kafkiana burocracia estatal.
Vivido pelo cômico britânico Dave Johns, o personagem título joga como pode frente às surreais regras para manter sua pensão pública por licença médica devido aos problemas cardíacos que o afastaram do trabalho como carpinteiro. Resta-lhe ainda tempo para ajudar a desempregada Katie (Hayley Squires), mãe solteira de um casal de filhos, transferida para uma habitação pública nas vizinhanças dele em Newcastle.
A Grã-Bretanha segundo Loach surge como uma sociedade hobbesiana, com desemprego disseminado e um Estado agressivo, balofo e inepto. As únicas saídas passam pela ilegalidade, seja a apresentada para Katie (mantenha-se a surpresa) ou a abraçada pelo jovem vizinho de Daniel, sob a forma do contrabando de tênis “made in China”.
É curioso como “Jogo do Dinheiro” e “Eu, Daniel Blake” traduzem o mesmo desconforto sob formas cinematográficas tão opostas. Ainda mais marcante, porém, é serem ambos tão econômicos em respostas para este mal-estar.