Por Amir Labaki
A 69ª edição do DOK Leipzig, um dos eventos mais tradicionais dedicados ao cinema documentário e de animação, investiga em sua retrospectiva deste ano as relações entre o cinema engajado de esquerda e de resistência democrática da América Latina dos anos 1960 e 1970 e os festivais da Alemanha dividida durante a Guerra Fria. Entre esta terça (26) e o próximo dia 1º, o ciclo “Cinema e Luta - América Latina entre o Leste e Oeste” apresenta 21 filmes realizados entre 1958 e 1985 em oito países, incluindo entre três produções da então Alemanha Oriental com foco na ditadura chilena estabelecida em 1973 pelo general Augusto Pinochet.
O ponto de partida é como títulos sobretudo do chamado “Terceiro Cinema” latino-americano encontraram guarida regular em projeções nos festivais alemães de cinema do período -principalmente a própria mostra de Leipzig, a principal do campo alemão dentro da esfera dita “socialista”, e o Fórum do Cinema Jovem, da Berlim capitalista. A maior parte das cópias agora projetadas pertencem a arquivos germânicos que, vale agradecer, “assim, contribuíram para garantir que esses filmes, politicamente ameaçados, pudessem ser preservados e circulados fora de seus países de origem”, como destaca a apresentação do programa.
“Para mim, era importante não exibir apenas os títulos óbvios, mas também criar, continuamente, novas conexões e incluir algumas surpresas”, explica o curador do ciclo, Florian Wüst, “Talvez apresentar ao público obras totalmente desconhecidas — e, ao mesmo tempo, permitir que algumas pessoas reencontrem filmes que já viram”.
O programa de abertura intitula-se didaticamente “Chamada pela Liberação”. Apresentam-se dois clássicos. Sob a forma de um pioneiro videoclip, o curta-metragem “Now!” (1965), do cubano Santiago Álvarez, é um cinemanifesto pelos direitos humanos dos afro-americanos a partir de imagens de sua repressão e de um dos hinos do movimento, cantado por Lena Horne. Já do também originalíssimo “A Hora dos Fornos” (1968), do argentino Fernando Solanas, será exibida a primeira parte, “Neocolonialismo e Violência”.
O caso chileno pauta nada menos que três sessões. O título mais conhecido é o longa-metragem “O Primeiro Ano” (1972), em que Patricio Guzmán documenta a alvorada da presidência Salvador Allende.
Três produções da então Alemanha Oriental expressam solidariedade à luta dos chilenos e à dura trajetória dos exilados. Talvez o menos conhecido seja “Chile Vive” (1976), um curta de animação de apenas um minuto, realizado pelo cineasta exilado Juan Forch em parceria com Michael Börner. Já o longa “Um Minuto de Escuridão Não Nos Deixa Cegos” (1976), de Walter Heynowski, Gerhard Scheumann e Peter Hellmich, traz raros depoimentos de moradores de Santiago, no calor da hora da repressão pinochetista.
Os programas “Mãe Terra” e “Morte À Exploração” exemplificam produções desenvolvidas em colaboração com diversas comunidades indígenas. Uma delas é o único título de ficção da mostra, “Yawar Mallku” (1969) do mestre boliviano Jorge Sanjines, sobre um programa como apoio dos EUA de esterilização de mulheres indígenas.
O isolado representante brasileiro na retrospectiva é o curta-metragem experimental “Lavra Dor” (1968), de Paulo Rufino e Ana Carolina, um libelo poético sobre a miséria da vida camponesa no país inspirado pela obra homônima do grande Mário Chamie (1933-2011). O documentário foi selecionado para o programa “Coragem da Imperfeição”, que segundo a apresentação “reúne títulos de diferentes países da América Latina e mostra como realizadores do Terceiro Cinema sabiam exatamente como mobilizar o público apesar das restrições dos meios materiais”.
“Lavra Dor” é exibido ao lado de filmes como o pioneiro “Tire Dié” (1958), do argentino Fernando Birri, sobre crianças que buscam moedas entre os trens que ligam Santa Fé e Buenos Aires; o uruguaio “Líber Arce, Liberar-se” (1969), de Mario Handler, Mario Jacob e Marcos Banchero, que retrata a mobilização catalisada pela morte pela polícia de um estudante universitário, algo similar ao ocorrido no Brasil no ano anterior com o secundarista Edson Luís; e “Um Dia Eu Perguntei” (1970), em que Julia de Álvarez protesta contra o conservadorismo da Igreja Católica colombiana frente à pobreza no país.
Foram sim anos de chumbo, mas ousadia estética e coragem política realimentavam-se com formidável vigor.