Por Amir Labaki
Até a Cinemateca Francesa adentrou o jogo das listas. Fundada por Henri Langlois três anos depois da criação do pioneiro arquivo de filmes da Suécia, a instituição gaulesa celebra seu 90º aniversário com uma mostra de 180 filmes, em cartaz em sua primeira parte (1936-1988) desde a semana passada até fins de novembro, com a segunda etapa de dezembro próximo a fevereiro de 2027.
A selação apresenta dois títulos por ano, sem repetir cineastas, escolhida a partir de uma curadoria interna em duas fases (consulte a íntegra aqui: https://www.cinematheque.fr/article/2520.html) . O par inicial apresenta duas comédias de triângulos amorosos, uma musical soviética, “À Beira do Mar Azul”, de Boris Barnet, e a francesa “Vamos Sonhar”, de Sacha Guitry. A dupla final tem tons mais sombrios, com o documentário espanhol sobre um toureiro, “Tardes de Solidão”, de Albert Serra, e o drama político americano “Uma Batalha Após A Outra”, de Paul Thomas Anderson.
Cortando o suspense, há apenas um filme brasileiro no ciclo: a parábola política “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, que divide o programa de 1967 com a comédia algo distópica “Playime -Tempo de Diversão”, de Jacques Tati. É o único título latino-americano da seleção, largamente francofônica. As cinematografias asiáticas emplacaram 17 filmes. Do Oriente Médio, há quatro; três, da África; um, da Oceania.
Uma maratona da série “Women Make Film: Um Novo Road Movie Através do Cinema”, de Mark Cousins, exibida pela primeira vez no Brasil pelo É Tudo Verdade de 2020, deveria entrar na ordem do dia para a equipe da Cinemateca Francesa. A mostra exibirá apenas 20 filmes dirigidos por mulheres, sendo três co-realizados por homens e mais de metade produzida neste último quarto de século. Uma única das noventa duplas anuais é exclusivamente feminina, e totalmente francesa: a de 2014, com a comédia “Se Você Não Fizer Isso, Eu Farei”, de Sophie Fillières, e “Garotas”, de Céline Sciamma.
Como justificar ainda a programação de apenas dez documentários, metade dos quais, adivinhe, franceses, ainda que entre estes os incontornáveis “A Dor e A Piedade” (1969), de Marcel Ophuls, e “Shoah” (1985), de Claude Lanzmann? Os filmes de animação não completam nem uma mão, destacando o “Dumbo” dos estúdios Disney (1941), dois clássicos do Studio Ghibli japonês, “O Túmulo dos Vagalumes” (1988), de Isao Takahata, e “Vidas Ao Vento” (2013), de Hayao Miyazaki, e a animadoc israelense “Valsa com Bashir”, de Ari Folman.
Como reconhece o diretor da Cinemateca Francesa, Frédéric Bonnaud, no texto de apresentação ao ciclo, há “lacunas evidentes” quanto a “dezenas de nomes e centenas de títulos”. Nem vou, portanto, começar a cobrança, mas registro apenas uma, como homenagem à despedida na semana passada de um dos maiores artistas dedicados ao documentário: o chileno Patricio Guzmán, da trilogia “A Batalha do Chile” (1975-79) e de tantos mais.
Mas basta de restrições. Como argumenta Bonnaud, “este ‘Top 180’ pretende ser, antes de tudo, uma brincadeira — uma maneira lúdica de lidar com nossas predileções e memórias, motivada pelo desejo de compartilhá-las. As listas, as classificações e as tentativas de catalogar um corpus tão mutável quanto infinito não passam, no fundo, de um impulso infantil de recapitulação; sabemos de antemão que tal esforço é imperfeito e incompleto, mas ele permite, pelo menos, adquirir algumas certezas e dividi-las com os outros”.
“Nos orgulhamos bastante desta lista”, prossegue ele, “pois ela reflete sinceramente uma certa maneira de encarar o cinema, a arte do século”. Reconheça-se ao programa, de maneira salutar, que “não se deixa levar facilmente pelas imposições do mercado; ela frequentemente opta por uma certa radicalidade, pouco compatível com o refrão estúpido segundo o qual os melhores filmes seriam aqueles que fazem mais sucesso — ou que são os mais conhecidos e catalogados”.
Celebre-se no ciclo a presença de “grandes sucessos”, “clássicos consagrados”, “verdadeiras raridades e muitos filmes a descobrir”. Há ainda grandes sacadas de programação lado a lado.
Minhas prediletas? Em 1939, “A Esperança”, a guerra civil espanhola por André Malraux, e a ironia humanista de “A Regra do Jogo”, de Jean Renoir. Na safra de 1958, o paralelo entre o drama neorrealista egípcio “Estação Cairo”, de Youssef Chahine, e o algo renoiriano “A Sala de Música”, do mestre indiano Satyajit Ray. O curta distópico “La Jetée”, de Chris Marker, e o thriller político “Tempestade Sobre Washington”, de Otto Preminger, no programa de 1962. E, com notável sensibilidade para nossos dias, a seleção dupla de 2002, “Intervenção Divina”, do palestino Elia Suleiman, e “O Pianista”, de Roman Polanski.
Furando essa ordem cronológica, como resistir ainda à piscadela até nos títulos, de 1963, com “O Leopardo”, de Luchino Visconti, e “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock? Algumas pitadas de humor são o sal de qualquer curadoria.