Por Amir Labaki
Se você quiser por um pouco menos de duas horas preocupar-se com algo que parece potencialmente ainda mais devastador do que a crise do STF, a eleição presidencial brasileira, o desequilíbrio avassalador de Donald Trump, a ascensão planetária da extrema-direita, a falência das instituições do pacto mundial pós-1945, ou a multiplicação de guerras, assista a “O Documentário da IA”, de Daniel Roher, vencedor do Oscar em 2022 por “Navalny”, e do estreante em longas-metragens Charlie Tyrell, na Netflix.
A inspiração kubrickiana o tempera desde o subtítulo: “Ou: Como Me Tornei Otimista Diante do Apocalipse”, na versão para o Brasil. Uma tradução aproximada mais fiel preservaria melhor algo a ironia do original: “Ou: Como Me Tornei ‘Apocalotimista’”. A referência óbvia do batismo é, claro, a sátira da corrida nuclear durante a Guerra Fria “Dr. Fantástico” (1964), no título nacional encurtado de “Dr. Strangelove, Or: How I Learned Stop Worrying and Love The Bomb!” (Dr. Fantástico, Ou: Como Aprendi a Parar de Me Preocupar e a Amar a Bomba!, subtítulo estupidamente excluído da versão brasileira).
O reconhecimento implícito da dívida no título surge apenas perto da conclusão do documentário, com um breve trecho de uma das imagens finais do clássico de Stanley Kubrick. Mas o vínculo com inquietações existenciais de Kubrick é assumido já na primeira cena, por meio de uma filmagem de arquivo de 1964 com o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke, inspirador e logo co-autor do roteiro de “2001, Uma Odisséia no Espaço” (1968).
“Os computadores de hoje são idiotas, mas não serão assim em outra geração”, provoca Clarke. “Eles começaram a pensar e, algum dia, serão mais espertos que seus criadores. É deprimente? Não vejo por quê. Suspeito que a evolução orgânica ou biológica esteja chegando ao fim”.
O tabuleiro está posto, trazendo para o mal-estar contemporâneo a evolução de dois temores expressos em filmes sucessivos por Kubrick: o apocalipse, de “Dr. Fantástico”, e a revolta das máquinas ultratecnológicas, de “2001”. Sem jamais o explicitar, é o espectro de HAL 9000, o rebelde computador de bordo da nave espacial Discovery, que melhor representa o medo de Roher, condutor do documentário, diante do presente desenvolvimento vertiginoso da inteligência artificial.
A tentativa de explicar este conceito para ele “inescrutável” pauta a primeira parte das entrevistas com um amplo time de especialistas e profissionais da área. “Cérebro digital”, simplifica Roher em dado momento, mas a melhor resposta me parece a de Jason Matheny, presidente da RAND: “IA é a aplicação da ciência da computação a problemas cognitivos”. Mais perto do fim, eis o mesmo Matheny criando o neologismo referido no subtítulo original, tentando equilibrar as previsões mais negativas e as mais positivas: “Sou um apocalotimista”.
Os riscos de uma atuação autônoma do controle humano por uma IAG (Inteligência Artificial Geral) dominam o segundo grande bloco de depoimentos, com especialistas como Jeffrey Ladish, da Palisade Research, e Tristan Harris, do Center for Humane Technology. O mais sombrio cenário, o “de um extermínio abrupto”, é levantado por Eliezer Yudkowsky, do Machine Intelligence Research Institute. Como contraponto, a perspectiva de um vasto campo de aplicações positivas da IA para o desenvolvimento agrícola e medicinal, para ficar em dois exemplos, é sintetizado no segmento seguinte por Sam Altman, CEO da OpenAI: “Vai ficar tudo bem”.
Diante da única certeza de que o futuro é imprevisível, “O Documentário da IA” arremata com um chamado à mobilização em favor de uma “desaceleração”, por meio de pressões sobre os principais executivos de empresas da área (além de Altman, dois outros também presentes no filme) e de lideranças mundiais, visando ao desenvolvimento de salvaguardas e da criação de uma instituição regulatória independente, similar à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Louve-se a dupla Roher e Tyrell por evitar a sisudez e monotonia dos filmes de “cabeças falantes”. Além da dinâmica edição de um arquivo audiovisual astutamente selecionado, articula-se com humor uma linha autobiográfica de Roher com a companheira Caroline Lindy, explicitando os processos paralelos da realização do próprio filme e da expectativa em torno da primeira gravidez.
Nada mais natural que retornem a Clarke: “Veja as mudanças incríveis que vivenciamos e a tudo que vivemos desde a Idade da Pedra. E mudanças ainda maiores estão por vir”. “O Documentário da IA” nos prepara para melhor navegá-las. Não é pouco.