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04/09/2026
Tudo que Você Queria Saber sobre “Limite“
Por Amir Labaki

O primeiro livro de cinema de que tenho referência que reproduz e discute plano a plano um filme clássico foi dedicado por David Mayer em 1972 a “O Encouraçado Potemkin”, de Serguei Eisenstein (Grossman Publishers). Algo similar, sem a pretensão de reprodução integral, já existe, claro, na França desde 1961 com a preciosa revista “L’Avant Scène Cinéma”. No cinema brasileiro, o pioneirismo deve-se ao pesquisador e ensaísta Saulo Pereira de Mello (1933-2020), que aplicou sua paixão obsessiva e de valor incalculável pelo marco experimental silencioso “Limite” (1931), de Mário Peixoto, num guia plano a plano editado em 1978 pela Funarte/Inelivro e há muito esgotado.

Até agora. Desconheço outra reedição do principal livro dedicado a um único filme que aperfeiçoe tanto o volume original, consequentemente aprofundando a compreensão do objeto de estudo, quanto “Mapa de ‘Limite’ – Filme de Mário Peixoto”, uma coedição pela Cosac/Cinemateca Brasileira organizada por Patricia de Filippi e Carlos Augusto Calil (200 págs, R$ 180).

Comecemos pela forma. O novo volume chega às livrarias com um esmerado tratamento gráfico, agora no formato ampliado de “coffee table book”, em contraste ao muito mais modesto livro original em brochura, e em papel mais encorpado, para enorme ganho em qualidade na reprodução dos fotogramas. Uma sutil alteração no título, incluindo o “Mapa de”, empresta desta vez a precisa fórmula do próprio trabalho apresentada na introdução original por Pereira de Mello. A capa mantém o espírito original, com um “close” de Taciana Rey no barco, na oitava das doze partes, mas em enquadramento que mais lhe descortina o rosto.

Entre as correções e os aprimoramentos à sequência de reprodução dos 1682 planos, como detalha De Filippi no texto “Os quereres de Saulo”, destacam-se a inclusão de toda uma sequência perdida (“do rolo dois”) recuperada sob a forma de “storyboard” desenhado pelo próprio Pereira de Mello a partir de orientação de Peixoto. “As indicações de Saulo para a trilha sonora no restauro digital de ‘Limite’ foram igualmente incorporadas ao ‘Mapa’, frisa a ex-diretora técnica da Cinemateca. Nada substitui o impacto do filme projetado, mas a “navegação” pelos fotogramas, página após a página, se tornou mais, precisa, clara e didática e, arrisco mesmo, mais emocional.

A fortuna de textos também se robusteceu enormemente. Calil explica, em “O projeto de reedição”, como seguiram-se de perto o roteiro de “sugestões” do autor para uma segunda edição, as adaptando de maneira sensata, erudita e criativa para uma concretização póstuma. Aos três essenciais escritos, mais o roteiro musical, do volume original somam-se agora mais nove, além das contribuições já citadas dos organizadores.
A primeira edição era aberta por uma “Nota pessoal” em que Pereira de Mello explicava o processo de produção do “mapa”, seguido de um prefácio do escritor Otávio de Faria (1908-1980), um dos organizadores da sessão de estreia mundial, em maio de 1931, no Chaplin Club, sobre “um mundo de imagens que jamais se apagariam em nossa memória”. Na sequência, Saulo explica que o livro “tenta, como uma partitura, ser uma um instrumento de reinstauração de sua presença mágica de obra de arte”.

Quatro novos textos, sendo um totalmente inédito, reafirmam em chave alta seu empenho de análise e preservação de “Limite”: uma sinopse; uma minuciosa história da produção e do lançamento do filme; um depoimento sobre o primeiro processo de restauração, concluída em 1972 e catalisadora da edição original (outra, digital, foi a pouco concluída); e uma reflexão, jamais publicada, sobre “as cenas faltantes & a recusa em rever ‘Limite’”, a partir de comentários de Peixoto e da renúncia dele ao reencontro com a própria obra.

A nova edição recupera, numa carta de Otávio da Faria a Mário Peixoto (1908-1992), poucos dias após a première carioca, uma saborosa “Crônica da primeira exibição”. Um ensaio de 1963 comparando “Limite” e “O Eclipse” de Antonioni registra o entusiasmo do professor de física e cinéfilo Plínio Sussekind Rocha (1911-1972), um dos patronos do antigo Chaplin Club que organizou a projeção em 1953 na Faculdade Nacional de Filosofia catalisadora da paixão do jovem Pereira de Mello. Descrevendo este “arrebatamento”, Walter Salles iniciou em “O Globo” seu tocante perfil de despedida em 2020 de Saulo, de cujo trabalho à frente do Arquivo Mário Peixoto foi fundamental apoiador.

“’Limite’: o encontro de três vidas no limitado de um barco perdido no oceano”. Assim começava o texto de apresentação no panfleto do batismo no Chaplin Club. “Duas mulheres e um homem, três destinos que a vida, depois de ter limitado constantemente nos seus desejos e possibilidades, reúne enfim no mais limitado dos espaços”. Ao que o próprio Mário Peixoto assim complementava, pouco antes de morrer, a Helena Salem: “O tempo é uma coisa ilusória, não existe. É isso que quis provar em ‘Limite’, e creio que consegui”. Na tela, como mais uma vez nas páginas, seu desafio não para de se renovar.

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