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28/08/2026
Mel Brooks em 20 Filmes

Por Amir Labaki

A partir do dia 3, na próxima semana, a American Cinematheque de Los Angeles apresenta a mais reveladora homenagem dentro da celebração dos 100 anos de vida do ator, cineasta, compositor e dramaturgo Mel Brooks (O Jovem Frankenstein, 1974), completados em 28 de junho passado. Brooks selecionou pela primeira vez uma lista de seus 20 filmes preferidos, uma sacada quando se lembra que sua obra cinematográfica se ancora majoritariamente em paródias dos grandes gêneros da Hollywood clássica.

O programa se estende por quase noventa anos de cinema e ilumina títulos essenciais que serviram de modelo para sua própria produção. Três dos filmes são diretamente vinculados à sua obra -e vida: “Banzé na Rússia” (1970), o segundo título que dirigiu e marcou sua primeira grande frustração de público e de crítica; “O Homem-Elefante” (1980), o drama gótico que produziu com sua Brooksfilms e segundo seu próprio diretor, David Lynch (1946-2025), numa de suas últimas entrevistas, “colocou-o no mapa”; e “O Milagre de Anne Sullivan” (1962), de Arthur Penn, que valeu o Oscar de melhor atriz a Anne Bancroft (1931-2005), sua segunda e idolatrada esposa.

A seleção de Brooks vai de “Luzes da Cidade” (1931), de Charles Chaplin, um dos gênios do humor mudo reverenciados em sua homenagem ao gênero em “A Última Loucura de Mel Brooks” (1976, de título original “Silent Movie”), a duas comédias de 2019, “Meu Nome É Dolemite”, de e com Eddie Murphy, e “Jojo Rabbit”, de Taika Waititi. As conexões de ambos com seu universo são óbvias, partilhando o risco do humor politicamente incorreto.

 

O primeiro gira em torno da cultura afro-americana, como em seu primeiro grande sucesso,“Banzé no Oeste” (1974). O segundo mergulha no cotidiano do nazismo, que combateu pessoalmente na França e na Alemanha em 1944 e 1945 e que satirizou em seu primeiro longa-metragem, e para mim de longe sua maior criação, “Primavera Para Hitler” (1967, adaptado para musical na Broadway em 2001 refilmado em 2005).

Gênero a gênero, é fascinante escrutinar os vínculos com seu cinema e com sua biografia.  Assim como na escolha de “Jojo Rabbit”, suas raízes judaicas constantemente reafirmadas, tendo por nome de batismo Melvin James Kaminsky, ecoam na inclusão entre os raros dramas de “A Lista de Schindler” (1993), de Steven Spielberg.

Ecos do humor judaico perpassam também as comédias programadas: dos irmãos Marx, “Uma Noite na Ópera” (1935), dirigido por Sam Wood, e de Paul Mazursky, “Um Vagabundo na Alta Roda” (1986), refilmagem de uma das primeiras obras-primas de Jean Renoir. Um único cineasta teve dois filmes destacados, Rob Reiner, filho de seu melhor amigo e primeiro grande parceiro na aurora da televisão americana, Carl Reiner. São eles, uma comédia com acento mais romântico, “Harry e Sally: Feitos Um Para o Outro” (1989), e o mockumnetary musical “Isto é Spinal Tap” (1984).

A paixão por musicais inspirou-lhe inúmeras das sequências mais populares de suas comédias. Basta conferir o número central de “Primavera para Hitler”, o dueto para “Puttin’on The Ritz” em “O Jovem Frankenstein”, e a coreografia à Busby Berkeley para a inquisição espanhola do filme de esquetes “A História do Mundo – Parte 1” (1981). A gratidão é reconhecida pela programação de dois dos clássicos com Fred Astaire, “O Picolino” (1935), de Mark Sandrich, e “Melodia da Broadway de 1940”, de Norman Taurog,

Quanto ao faroeste, colocado de cabeça para baixo em “Banzé no Oeste”, Brooks destaca um dos clássicos, “Os Brutos Também Amam” (1953), de George Stevens, e uma revisita contemporânea, em “Dançando com Lobos” (1990), de Kevin Costner Do mestre dos westerns, John Ford, curiosamente escolheu um de seus principais dramas, “As Vinhas da Ira” (1940). Por sua vez, da filmografia de Alfred Hitchcock, que parodiou em “Alta Ansiedade” (1977), escolheu o explicitamente satirizado “Psicose” (1960).

Três dos escolhidos espelham outras dimensões da cinefilia de Mel Brooks: “Os Boas Vidas” (1953), de Federico Fellini, o único título em língua não-inglesa; “Pacto de Sangue” (1944), o “noir” incontornável de Bill Wilder; e “Ed Wood” (1994), a hilária homenagem ao “pior cineasta do mundo” dirigida por Tim Burton. Tudo somado, até 12 de novembro o ciclo da American Cinematheque será um insuperável mapa para a arte de Mel Brooks.

Não estando lá, vale mergulhar no documentário em duas partes lançado no início do ano e disponível em streaming pela HBO Max, “Mel Brooks: O Homem de 99 Anos!”, dirigido por Judd Apatow e Michael Bonfiglio. Longas e certeiras entrevistas com ele nos conduzem de forma matizada, enriquecidas pelos imbatíveis arquivos audiovisuais dos EUA, por mais de oito décadas de excelência em comédia -ainda que com inevitáveis tropeços (“S.O.S. – Tem Um Louco no Espaço”, 1987, “A Louca! Louca História de Robin Wood”, 1993). A quem criou Max Bialystock, Leo Bloom, o jovem Frankenstein e, quase faltava espaço, o Agente 86 (ao lado de Buck Henry), está tudo perdoado. E, nestes tempos melindrados, é bom escutá-lo: “A comédia destrói a dignidade do inimigo”.

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