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21/08/2026
Uma Líder Bem de Perto

Por Amir Labaki

O impacto político da liderança de Jacinda Ardern na Nova Zelândia encontra merecido frescor cinematográfico no documentário a ela dedicado por Michelle Walshe e Lindsay Utz, disponível agora para aquisição pela Prime Video depois de vencer há três meses o Emmy de melhor documentário e de melhor filme não-ficcional político na esteira de sua vitória no prêmio de público no lançamento no Sundance Festival do ano passado. “A Primeira-Ministra - A História de Jacinda Ardern” estende para sua forma a busca de transparência entre a arena pública e o cotidiano privado que marcou a meia década de sua administração no país da Oceania.

Com apenas 37 anos, deputada há menos de uma década, a trabalhista Ardern chegou ao poder em 2017 numa surpreendente reviravolta eleitoral. A sete meses de eleições parlamentares, assumiu a liderança de seu partido diante de pesquisas que indicavam derrota certa. “Minha tarefa era salvar a mobília”, reconhece numa entrevista no filme. “Ninguém achava que fosse possível vencer”.

Se o contexto internacional era desafiador, com o início da ascensão da onda de extrema-direita mundo afora simbolizada pela eleição no ano anterior de Donald Trump para seu primeiro mandato como Presidente dos EUA, o quadro doméstico era não menos desafiador. “Ciclos políticos na Nova Zelândia são muito curtos. Eu tinha apenas três anos para fazer o máximo possível”, lembrou Ardern.


Seu primeiro discurso parlamentar, em 2008, adiantara a linha de seu governo. “Minha paixão pela justiça social veio do vi”, afirmara, recordando o custo social do desemprego na região onde crescera. Ao ser empossada, resumia que sua administração enfatizaria “a bondade, em face do isolacionismo, do protecionismo e do racismo”.  Na Nova Zelândia, lembre-se, convivem 200 etnias e mais de 160 línguas.


Ardern logo acelerou a implementação de suas políticas prioritárias visando combater a emergência climática e a vulnerabilidade social de crianças, assim como fortalecer as mulheres e o respeito à diversidade étnica. Entre suas primeiras medidas, aprovadas pelo Parlamento, proibiu novas explorações de petróleo e gás no mar, encaminhou a descriminalização do aborto e estabeleceu programas contra a pobreza infantil.

Com poucos meses no posto, uma gravidez não-programada apresentava um novo desafio para Ardern. Entra em cena seu companheiro, Clarke Gayford, com quem morava mas não era formalmente casada. Para além de fundamental coadjuvante no documentário, Gayford grava minuciosamente o dia a dia em casa, incluindo conversas diretas com a parceira. O filme de Walshe e Utz ganha assim um acesso raríssimo aos bastidores pessoais de uma líder em pleno exercício do cargo.

A alternância entre registros públicos e familiares espelha no documentário a afirmação por Ardern de um novo tipo de liderança por jovens mulheres. Seu símbolo mais visível se torna a presença da pequena Neve, nos escritórios da administração como nos bastidores da Assembleia Geral da ONU de 2018. À sua própria inquietação quanto a “como vou fazer isso com um bebê?’, Jacinda responde alternando-se entre pausas para amamentação e entrevistas espirituosas em que dribla questões espinhosas sobre Trump. 

Em meados de seu primeiro mandato, Ardern demonstra ser possível compatibilizar determinação e compaixão ao enfrentar o ataque terrorista por um supremacista branco que matou 51 muçulmanos em mesquitas em Christchurch. Às vítimas, engajamento e presença; contra o terror, anonimidade ao perpetrador e leis de banimento de armamentos e munições.

A mesma equação marcaria sua gestão da pandemia de covid-19, com rápido fechamento de fronteiras seguidas por testagens em massa e estritas regras de restrição de movimento e contato. “Fazer menos era a diferença entre gente segura e gente morrendo”, frisou. Em outubro de 2020, no meio da crise, uma vitória eleitoral ainda maior, conquistando maioria absoluta para os trabalhistas, lhe confiava um novo mandato.

Apesar do triunfo em controlar no país a tragédia planetária da pandemia, sua dinâmica macabra e imprevisível limitou a extensão da agenda de afrouxamentos de restrições. A Nova Zelândia não ficou imune à onda de manifestações de negacionistas de extrema-direita, que bem conhecemos. O auge do confronto se deu pela ação policial, em março de 2022, pelo cerco do Parlamento por militantes antivacinação. 

Estampada em cartazes ao lado de suásticas, vítima com familiares e colegas de ameaças anônimas, Ardern testemunha o estresse agudo de sono superficial, dores de cabeça, e zumbidos constantes. A pandemia vencida, chegara para ela a hora de “baixar a temperatura”. Em janeiro de 2023, Ardern anunciava sua renúncia ao cargo, a sete meses de novas eleições.

“A Primeira-Ministra” a filmou em seu primeiro retiro, na Universidade Harvard, nos EUA. Desde então, Ardern passou um tempo em Oxford, na Inglatera, até no início deste ano mudar-se com Clarke e Neve para Sidney, na Austrália, “mais próxima de familiares e amigos”.


“Temos um hiperpartidarismo hoje que pode ser prejudicial”, reflete no documentário. “Não trabalhamos em conjunto”. Nos EUA, Ardern cita o comentário de Benjamim Franklin (1706-1790), um dos pais da Constituição americana de 1787: “A Republic, if you can keep it” (Uma República, se puderem mantê-la), frisando a responsabilidade coletiva. 

Seu motto o empresta do maior ídolo, o explorador britânico Ernest Shackleton (1874-1922): “Otimismo é a verdadeira coragem moral”. “Otimismo não é ingenuidade”, complementa. “É esperança”. 



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