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17/07/2026
O Kafka de Holland

Por Amir Labaki

É inevitável alguma frustração diante de “Franz”, a biografia cinematográfica do escritor judeu tcheco Franz Kafka (1883-1924) dirigida pela diretora polonesa Agnieszka Holland (Filhos da Guerra, 1990, Zona de Exclusão, 2023), embora seja desses filmes que se assiste torcendo para que nos surpreenda em seu desenrolar pelo empenho intelectual envolvido. Pontualmente celebra-se uma que outra solução, mas não é a primeira vez que a vida e a obra do autor de “O Processo” eludem a arte das telas como se fossem intraduzíveis plenamente em imagens e sons.

Um dos tropeços essenciais se encontra no roteiro escrito pela própria Holland em parceira com Marek Epstein. Um grande acerto estrutural, o de recusar a ortodoxia cronológica ainda que lhe resumindo a trajetória do berço (quase) ao túmulo, é solapado pelo constante mecanicismo dos diálogos, como que acorrentados pela armadilha da citação verbatim das palavras do escritor, extraídas de seus textos, sejam os literários como também de diários e cartas, ou de citações das memórias publicadas de contemporâneos, como nas “Conversas com Kafka” de Gustav Janouch.

Tudo se passa como se o drama íntimo do autor demandasse, diante de uma vida sem grandes eventos, uma pretensa legitimação pelos comentários em suas próprias palavras. Há uma desconfiança na suficiência da encenação dos fatos -o convívio extenso com a família da classe média judaica na Praga ainda dos tempos do Império Austro-húngaro; o cotidiano como funcionário da empresa comercial do pai despótico e como burocrata graduado no Instituto do Seguro Operário contra Acidentes de Trabalho; a relação distanciada, “fantasmagórica’, sobretudo epistolar, com as mulheres (a noiva Felice Bauer, a amante Milena Jesenská); a cumplicidade com o círculo literário do Café Arco com Max Brod, Franz Werfel e Ernst Polack; a lenta agonia pela progressão da tuberculose.

Mais orgânicas, ainda que previsíveis em cinebiografias de artistas, são as adaptações fílmicas de trechos das obras, com destaque para a do conto “Na Colônia Penal”. O roteiro de Holland e Epstein parece aqui seguir as lições do filósofo Günther Anders (1902-1992) em “Kafka: Pró e Contra” (Editora Perspectiva). Escapa-se da leitura de “seu mundo” como “sobrenatural, onírico, mítico ou simbólico”. Kafka surge como sobretudo “um fabulador realista”.

A justeza do tom “grand guinol” da filmagem dessa vinheta literária frisa o desconforto frente à estridência excessiva da interpretação central do alemão Peter Kurth (Adeus, Lênin; Babylon Berlin) como o pai tirânico, Hermann Kafka, na ademais naturalística performance do elenco, a começar da revelação alemã Idan Weiss no papel-título. Ao invés de acentuar, o constraste achata ao nível da caricatura aquela abusiva relação familiar, imortalizada em “Carta ao Pai”. Com isso, dilui-se dramaticamente a louvável decisão de roteiro e direção de evitar-se estetizar a encenação da vida de Kafka a partir de sua obra.

O ritmo caleidoscópico das idas e vindas temporais acaba por dispersar ainda duas sacadas póstumas. Uma ficcional, encenando diversos momentos da luta pela preservação por Max Brod (1884-1968) dos manuscritos kafkianos, primeiramente desconsiderando os pedidos expressos do amigo e logo diante da ascensão nazista. Outra, documental, sob a forma de sequências irônicas sobre a arqui-exploração comercial de Franz Kafka principalmente pela indústria turística, que me parecem inspiradas pela conclusão do álbum ilustrado por Robert Crumb e escrito por David Zane Malrowitz (Desiderata, 2010).

“Franz” busca, assim, a um só tempo contextualizar o escritor em seu universo e em seu tempo e apresentá-lo como fenômeno cultural contemporâneo. É um projeto nobre que, diante dos excessos e tropeços, frustra ao não se concretizar plenamente. Credite-se, contudo, a Holland o mesmo que Modesto Carone (1937-2019), a quem devemos primorosas traduções de Kafka, saudou em Anders: o “inestimável serviço” de “livrá-lo de enquadramentos rígidos para estatui-lo na sua dimensão original e total de obra de arte”.

É pena que não possa assisti-lo também outro fundamental mediador de sua introdução no país, o filósofo marxista Leandro Konder (1936-2014). Na conclusão de seu “Kafka -Vida e Obra” (Paz e Terra), Konder lembrava como “candidamente” o romancista austríaco Franz Werfel (1890-1945) certa vez asseverara: “Além das fronteiras da Tchecoslováquia, ninguém compreenderá Franz Kafka”. O mundo hoje é dele.



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