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10/07/2026
“Os Doces Bárbaros“ aos 50

Por Amir Labaki

Há cinquenta anos “Os Doces Bárbaros”, o show com Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil e Maria Bethânia, estava na estrada, originando um álbum essencial e um dos principais documentários brasileiros, para além do registro meramente musical. Na abertura de um texto para o press-book da obra dirigida por Jom Tob Azulay, Caetano resume tudo: “’Os Doces Bárbaros’ não é apenas o documentário de um lindo acontecimento, é um lindo filme”. Não deixe de vê-lo ou revê-lo, se possível em salas (dica de programação), para compreender devidamente seu impacto, ou mesmo em streaming, pelo Itaú Cultura Play.

Numa entrevista recente, Azulay relembrava a origem das filmagens: “A proposta inicial de ‘Os Doces Bárbaros’ era talvez até, eu diria, nem de um documentário. Era de um registro quase, com esse grupo que tinha acabado de ser criado por Gil, Gal, Caetano e Bethânia, com o objetivo de comemorar os dez anos de carreiras individuais de cada um. (...) Numa sexta-feira, eu fui convidado para filmar um ensaio geral deles, que seria um último ensaio”.

Tivesse sido apenas um “registro” do espetáculo e dos bastidores do show já teria sido histórico. O repertório incluía nada menos que cinco novas parcerias entre Gil e Caetano, com Gil compondo ainda outras quatro canções. Entre as primeiras, “São João, Xangô Menino” e “Eu e Ela Estávamos Ali Encostados na Parede”, a partir de um trecho do romance “PanAmérica”, de José Agrippino de Paula. Brilham entre as apenas de Gil nada menos que “Esotérico”, “Pé Quente, Cabeça Fria” e “O Seu Amor”. O roteiro musical apresentava ainda canções como “Fé Cega, Faca Amolada”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. 

A ausência de outra canção inédita inicialmente planejada, “Como são lindos os chineses” de Péricles Cavalcanti, faz parte da história invisível ditada pela censura. O pesquisador Luiz Abrahão prepara-se para lançar uma radiografa desse embate e de muito mais em “Mistério Sempre Há de Pintar Por Aí – Uma História dos Doces Bárbaros” (no prelo), com prefácio de Azulay, cuja leitura aguardo com ansiedade.

Há, portanto, o que não se ouve e não se vê em “Os Doces Bárbaros”. Mas é imenso o que está lá. Na mesma entrevista, Azulay foi ao ponto: “Inicialmente eu achava que estava fazendo apenas um trabalho só sobre esses quatro artistas e, na verdade, (...) eu percebi que eu tinha efetivamente feito um filme sobre os anos 1970”. 

Não há na declaração qualquer exagero. O documentário explicita a essência do projeto e da conjuntura em que se desenvolveu. Era a contracultura arrostando a ditadura militar, então a pleno vapor. O quarteto fazia um espetáculo libertário, dionisíaco, pós-tropicalista, em contraste com a repressão à solta pelo Brasil.

Um episódio policial escancarou essa tensão em meio à turnê, iniciada em fins de junho de 1976 em São Paulo. No início de agosto, em Florianópolis, Gilberto Gil e o bateirista Chiquinho Azevedo foram presos por porte de maconha. A câmera tudo registrou, até mesmo a audiência na Primeira Vara Criminal da cidade catarinense. Ë inevitável o eco entre essa detenção de Gil e sua prisão, com Caetano, no final de dezembro de 1968, na razia autoritária pós-AI-5. (Veja o inesquecível testemunho de Caetano sobre o cativeiro militar que os forçou ao exílio londrino no documentário “Narciso em Férias”, de 2020, de Renato Terra e Ricardo Calil).

Editado magistralmente por Eunice Gutman e Luis Carlos Saldanha, “Os Doces Bárbaros” traduz em filme esse embate entre o belo e a fera, articulando e alternando-se entre os registros (em 16mm, ampliados para 35 mm nos EUA para a distribuição) de palcos e tribunal, camarins e delegacia, quartos de hotel e clínica psiquiátrica, num mosaico único de artistas brasileiros encantando um país sob jugo autoritário. Como entoavam na canção composta por Gil a contrapelo do “slogan da ditadura”, “O seu amor/Ame-o e deixe-o/Livre para amar”.

Caetano sacou bem: “a montagem concorre para a criação de um clima particular em cada número. E cada número tem seu clima cinematograficamente encontrado”. De fato, o brilho de cada interpretação e a intensidade das interações imantam o álbum, mas podem ser apenas como que testemunhadas plenamente no filme. O coro em “Os Mais Doces Bárbaros” e o Bethânia quase toda em close em “Um Índio”, a voz sempre cristalina de Gal e a coreografia contagiante de Gil, mas também Bethânia metralhando profeticamente a cultura da celebridade e Gil fitando ironicamente a câmera durante o teatro da audiência no tribunal.

Na cachoeira da memória se sucedem tomadas, números, cenas cintilantes. Carrego comigo, depois de exaurir o álbum de tanto rodar na vitrola, a primeira sessão de “Os Doces Bárbaros” quando de sua estreia em meados de 1978 em São Paulo. Em 2004 tive o privilégio de exibi-lo no É Tudo Verdade para novas gerações, restaurado com o retorno de cenas antes censuradas e som remasterizado.

Dez anos antes, em 1994, a Mangueira reafirmava seu legado em desfile na avenida. Em 2002, alto astral, altas transas, lindas canções, o quarteto voltava a se reunir em shows serenamente celebratórios, documentada por Andrucha Waddington em “Outros (Doces) Bárbaros” (2004). Agora, meio século vivido, tudo ainda é tal e qual, e, no entanto, nada é igual.



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