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03/07/2026
Projeto reconstrói o “Dom Quixote” de Welles
Por Amir Labaki

A mais completa versão da inacabada adaptação do “Dom Quixote” de Miguel de Cervantes dirigida por Orson Welles (1915-1985) está a caminho. O anúncio envolvendo a colaboração de quatro cinematecas europeias foi feito durante uma conferência internacional, no último dia 22, durante a 40ª edição do festival Il Cinema Ritrovato, em Bolonha, Itália.

“A Filmoteca Española (em Madri), a Cinémathèque Française, a Cineteca Nazionale italiana (em Turim) e o Filmmuseum de Munique impulsionam o projeto”, afirma na abertura o release oficial que seguiu o simpósio. A “reconstrução da obra inacabada” será dirigida por Esteve Riambau, historiador e cineasta espanhol, ex-diretor da Filmoteca da Catalunha e autor de quatro livros sobre o diretor de “Cidadão Kane” (1941), incluindo “Orson Welles En El País de Don Quijote”, escrito em colaboração com Carlos F. Heredero e base do roteiro do documentário homônimo dirigido em 2000 por Carlos Rodríguez para o Canal + francês.

Welles trabalhou em sua adaptação em constante mutação das primeiras filmagens ainda sem compromisso, em 1955 em Paris, até variações na montagem de trechos do vasto material às vésperas de sua morte, em 1985. O essencial das filmagens aconteceu no México, em 1957, na Itália, em 1959, e na Espanha, em 1964 e 1966. 

A primeira das versões projetava um telefilme para a CBS americana. Como contou Simon Callow no terceiro volume de seu ainda inconcluído projeto biográfico de Welles, ele “teve a ideia inspirada de lançar Dom Quixote e seu valente escudeiro, Sancho Pança, no mundo moderno. Ele o intitulou ‘Don Quixote Passes By’ (Dom Quixote Passa Por Perto)”. Filmando no Bois de Boulogne parisiense, Welles escalou como intérpretes, respectivamente, Mischa Auer e Akim Tamiroff, com quem havia há pouco trabalhado no thriller “Grilhões do Passado” (1955). O chamado de Cervantes nada foi abalado pela recusa da emissora dos EUA.

Na década seguinte, Welles foi rodando o principal de seu mutante “Quixote”, entre trabalhos de ocasião como ator (Estranha Compulsão, 1959, Os VIPs, 1963) e outras produções na direção (A Marca da Maldade, no breve retorno a Hollywood, 1958, O Processo, de volta ao autoexílio europeu, 1963). Mantendo no México a mesma premissa do confronto da dupla central com a sociedade contemporânea, ele se inseriu na narrativa contando o entrecho para uma Dulcinéia vivida pela atriz infantil Patty McCormack, com o sempre fiel Tamiroff como Sancho e o exilado espanhol Francesco Reiguera substituindo Auer no papel do cavaleiro da Triste Figura.

Para filmar na Espanha novas cenas, emplacou uma série documental para a emissora italiana RAI, “Nella Terra di Don Chichiotte” (filmada em 1961, transmitida em 1964), percorrendo o país num “travelogue” ao lado da mulher, a atriz Paola Mori, e uma das filhas, Beatrice. Até 1972, segundo o especialista Joseph McBride, Welles estava enviando seu diretor de fotografia Gary Graver para “filmar material em cores de moinhos de vento em Sevilha”. 

O próprio cineasta lhe explicava as alterações no projeto: “Continuo mudando minha abordagem; o tema me domina e passo a ficar insatisfeito com as filmagens antigas (...) Agora, vou transformá-lo em um ensaio cinematográfico sobre a poluição da velha Espanha”. Como bem definiu Callow, “Dom Quixote” acabara se transformando em “seu caderno de notas, seu diário, sua carta cinematográfica para si mesmo”.

Depois da morte de Welles, afora cenas em vários documentários, por duas vezes edições do material bruto de “Quixote” chegaram às telas. No Festival de Cannes de 1986, uma sessão especial apresentou uma montagem assumidamente fragmentária de 40 minutos compilada pela Cinémathèque Française. Seis anos depois, o cineasta espanhol Jesús Franco lançava seu longa-metragem “Dom Quixote de Orson Welles”, classificada como “fiasco” por McBride e dissecada em sua confusa e incompleta edição de materiais pelo crítico Jonathan Rosenbaum. 

Em entrevista para a Ray Kelly, editor do site especializado Wellesnet, Estele Riambau explicou passo a passo como se dará a “reconstrução”: “A primeira fase do projeto, neste momento, consiste em estudar o roteiro (mais de 1000 páginas dispersas por vários arquivos – AL) e digitalizar todos os materiais existentes — cerca de 70.000 metros. A segunda, no próximo ano, será o cruzamento do roteiro com as cenas existentes. A terceira, em 2028, será a montagem das imagens seguindo uma ordem filológica o mais próxima possível das intenções de Welles”.

Numa estocada ao presente projeto de reedição com novas filmagens de “Soberba” (1943), Riambau frisa: “Nossa linha vermelha, enquanto arquivos fílmicos públicos fiéis ao código de ética da FIAF (Federação Internacional de Arquivos Fílmicos), será não adicionar nem recriar as cenas faltantes”.

Numa entrevista de 1964 a críticos espanhóis reproduzida pela revista Cahiers du Cinéma, Orson Welles sustentava que sua adaptação, “quase terminada”, seguia “o mesmo espírito de Cervantes”; o que o deixava “nervoso” era lançá-la. “Este será um filme execrado”, cravava. Seu prognóstico será finalmente testado em 2029.



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