Por Amir Labaki
“Um continente desconhecido”. O crítico e historiador de cinema Bernard Bastide define assim a produção epistolar de François Truffaut (1932-1984) na introdução ao segundo volume por ele editado das cartas do diretor de “Os Incompreendidos” (1963) e “O Homem Que Amava as Mulheres” (1977). Depois do livro com a correspondência com escritores, que saudei nesta coluna ao aparecer pela Gallimard em 2022, é a vez de “François Truffaut – Correspondance Avec Des Cinéastes 1954-1984” (mesma editora, 524 págs., 25 euros).
“Missivista compulsivo, quando não estava filmando, Truffaut podia escrever cartas longuíssimas num mesmo dia, abrindo assim um interlúdio encantado em sua corrida frenética contra o tempo”, analisa Bastide. O resultado, sustenta e prova, é “uma obra literária por si só”.
São já quatro volumes reunindo a extensa correspondência do mestre romântico da Nouvelle Vague, infelizmente todos ainda inéditos no Brasil. Uma primeira seleção, mais genérica, chegou às livrarias ainda sob o impacto de seu precoce desaparecimento, aos 52 anos, vitimado por um tumor cerebral, organizada em 1988 por Gilles Jacob, então diretor-geral do Festival de Cannes, e Claude de Givray, roteirista e amigo do cineasta.
Há três anos Serge Toubiana, seu biógrafo em filme (1993) e em livro (com Antoine de Baecque, 1998, Record, 588 págs., esgotado), reuniu em “Mon Petit Truffe, Ma Grande Scottie” (Denoël, 452 pags, 29,90 euros) as reveladoras trocas epistolares entre Truffaut e a americana Helen Scott (1915-1987), sua cúmplice e tradutora durante as entrevistas minuciosas de 1962 para o insuperável “Hitchcock-Truffaut” (Companhia das Letras, 2004, 368 págs., esgotado). Entrou Bastide então em campo, mergulhando nos arquivos do diretor na Cinemateca Francesa e em outras coleções públicas e privadas para selecionar e certeiramente anotar os volumes com escritores e agora com cineastas.
Bernard Bastide trazia a experiência de editor de três outros livros sobre e “de” Truffaut. Começou com um ensaio (Atelier Baie, 2015) sobre seu segundo curta de estreia, “Os Pivetes” (Les Mistons, 1957). Seguiram-se uma antologia dos primeiros passos dele como crítico, “Chroniques d‘Arts-Spectacles: 1954-1958” (Gallimard, 2019, 528 págs., 24 euros, também inédito aqui), e a edição da versão completa de uma longa entrevista biográfica para TV de 1981, em “La Leçon de Cinéma” (Denoël, 2021, 272 págs;, 28 euros, idem).
Na introdução, Bastide divide os interlocutores de “Correspondance Avec Des Cinéastes” em sete grande famílias: pioneiros (Abel Gance, Henri-Georges Clouzot), mestres (Alfred Hitchcock, Jean Renoir, Max Ophuls, Roberto Rossellini) diretores franceses que inclementemente criticara (Claude Autant-Lara, Georges Lautner, Marcel L’Herbier), companheiros de Nouvelle Vague (Agnès Varda, Alain Resnais, Claude Chabrol, Jacques Rivette, Jean-Luc Godard), contemporâneos (Bertrand Tavernier, Marcel Ophuls, Pierre Kast), a geração desta posterior (Claude Miller, Leos Carax) e colegas de ofício mundo afora (Federico Fellini, Nicholas Ray, Stanley Kubrick, Wim Wenders).
É uma repartição didática, mas naturalmente desigual. Com o primeiro e três últimos grupos, as trocas são em geral mais pontuais, sobretudo com elogios específicos ou pedidos de circunstância. Por exemplo, em 1961 Truffaut escrevia a Kubrick para pedir, sem sucesso apesar deste responder-lhe como “grande admirador de seus filmes”, a utilização em “Jules e Jim -Uma Mulher Para Dois” (1961) de um “travelling” das trincheiras de guerra de “Glória Feita de Sangue” (1957).
As cartas com seus guias, os criticados e seus colegas de viagem têm, a cada grupo, cada cineasta, maior calor, distinta argumentação, variada intimidade. As correspondências mais frequentes e longevas (iniciadas ambas em 1957) foram mantidas com Jean Renoir (1894-1979), na maior parte do tempo em seu autoexílio hollywoodiano desde 1941, e com o documentarista Marcel Ophuls (1927-2025), filho de outra referência central, o austríaco Max Ophuls (1902-1957).
Tendo “A Regra do Jogo” (1939) como um de seus filmes formativos essenciais, Truffaut trocou com Renoir algumas de suas cartas mais pessoais, com detalhes de projetos e produções e constantes referências familiares. Com Marcel, de quem admirava “A Tristeza e a Piedade” (1969) tanto que por muito adiou “O Último Metrô” (1980), o ponto alto é uma polêmica em 1983 em torno da autoria de filmes.
É por demais simbólico da importância do missivismo truffautiano que tenha sido pela troca de cartas que aconteceu a ruptura com seu colega de “Cahiers du Cinéma” e parceiro de iniciação cinematográfica -sim, ele, Jean-Luc Godard (1930-2022). O distanciamento já era evidente, mas a gota d’água foi Godard chamá-lo de “mentiroso”, em 1973, um dia depois de assistir a “A Noite Americana”. Truffaut não se fez de rogado, respondendo com uma carta três vezes mais longa cobrando-lhe os maus passos dos últimos anos e o caracterizando como “dandy”.
Essa briga por escrito teria ainda um melancólico posfácio. Em 1980, Godard escrevia a Truffaut pela última vez, em conjunto a Chabrol e Rivette, para propor que o visitem em Genebra, na Suiça, para gravar uma conversa a quatro, tendo em vista um livro potencial sobre “o que se tornou o cinema deles”. “Espero que este projeto de livro apressado a vender à (editora) Gallimard não signifique que você agora não mais se importa com o Terceiro Mundo como com o Quarto”, ironizou Truffaut na réplica. Jamais se reencontraram.