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29/05/2026
Marilyn aos 100

Por Amir Labaki

É uma curiosa situação: neste 1º de junho, segunda-feira próxima, celebra-se o centenário de nascimento de Norma Jeane Mortenson (1926-1962), mas Marilyn Monroe, sua persona pública, não tem idade. Dos estúdios de Hollywood no apogeu aos mais populares serviços de streaming em plena expansão, a indústria audiovisual há mais de 80 anos explora o mito que ajudou a construir, a destruir e a eternizar. 

Se Andy Warhol em tela, Elton John em canção, Cabrera Infante em ensaio, Joyce Carol Oates em romance, Norman Mailer em biografia, e Arthur Miller, seu próprio viúvo, em peça, entre muitos, a um só tempo investigaram e poliram a esfinge sem decifrá-la, não haveria muito nesta coluna sobre mais uma efeméride a adicionar. 

Entre os escritos de críticos brasileiros, duas sacadas sempre me chamaram atenção. Escrevendo no calor do lançamento no Correio da Manhã sobre “O Pecado Mora Ao Lado” (1955), como descobri numa das resenhas selecionadas para a antologia “Um Filme Por Dia” (Companhia das Letras, 2004), Antonio Moniz Vianna (1924-2009) destacava já o talento de Marilyn, para além das odes rotineiras à sua evidente sensualidade. 

Em outra efeméride, o cinquentenário em 2012 de sua trágica morte por excesso de barbitúricos, Sérgio Augusto não fazia por menos no Estadão ao ressaltar como seu “sorriso radiante e frequente (...) jamais conseguiu disfarçar a intensa tristeza que seus olhos traíam”.

Dos perfis publicados já neste século por aqueles que a conheceram (ou, como no caso, apenas a encontraram), nenhum me parece mais percuciente do que o publicado pelo crítico e cineasta Peter Bogdanovich no capítulo final de seu livro de retratos de estrelas hollywoodianas, “Who The Hell’s s In It” (Quem diabos está nele, Knopf, 2004, inédito no Brasil). “O fato é que Marilyn estava em maus lençóis desde o dia em que nasceu”, analisa o diretor de “A Última Sessão de Cinema” (1970), “na cidade dos anjos e do cinema, uma pobre bastarda, uma criança anjo que ascendeu ao trono como rainha de uma cidade e de um estilo de vida que, no entanto, a desprezavam. Que ela tenha morrido mártir do cinema ao mesmo tempo em que o sistema original de estrelas de estúdio — através do qual ela ascendeu — finalmente desmoronou e também foi à morte parece simbólico demais para não ser notado”.

É notável que Bogdanovich expanda assim para o sistema de estúdios como um todo, cujo ocaso pessoalmente testemunhou, a sacada do sociólogo francês Edgar Morin em seu ensaio de 1972 “As Estrelas do Cinema” (Éditions du Seuil). A morte de Marilyn, sustentou Morin, “é o toque de finados do ‘star system’”. Seria ela “não apenas a última das estrelas do passado, mas a primeira estrela sem ‘star system’”. Com uma longevidade póstuma impressionante, como testemunhamos nós.

Há ainda um salutar “aggiornamento” exegético no escrito de Bodganovich frente à tradicional leitura machista imortalizada por Norman Mailer na definição de Marilyn como “o doce anjo do sexo”. Peter não a subverte, como fez a ensaísta Camille Paglia ao atribuir intencionalidade à autoconstrução da persona cinematográfica supersexualidada pela atriz, mas busca valorizar-lhe a competência como intérprete, no mais das vezes como comediante (com o que, sem igual ênfase, concordava Mailer).

Diretor de dois de seus melhores filmes, “O Pecado Mora Ao Lado” (1955) e “Quanto Mais Quente Melhor” (1959), Billy Wilder a reconheceu como “uma excelente atriz de diálogos”, que “sabia onde estava a risada”. Em conversa com Bogdanovich, mesmo o austero Arthur Miller argumentou como “é incrível que ela tenha causado qualquer impressão” a partir do material “muito primitivo” (passe o exagero) a partir do qual trabalhara.

A prova do talento de Marilyn está nas telas, ainda mais impressionante ao percebermos que foram apenas cerca de uma dúzia de performances em menos de uma década como protagonista. Para começar, mergulhe no ano mágico de 1953, com “Torrentes de Paixão”, de Henry Hathaway, “Os Homens Preferem para as Loiras”, de Howard Hawks, e “Como Agarrar Um Milionário”, de Jean Negulesco. 

No ano seguinte, ei-la ao lado de Robert Mitchum num faroeste subestimado de Otto Preminger, “O Rio das Almas Perdidas”. Seguem-se, quase em cadeia, a dupla colaboração com Wilder, o delicioso “Adorável Pecadora” (1960) ao lado de Yves Montand sob a direção de George Cukor, e tragicamente o último e maior papel dramático, escrito por Miller para a direção de John Huston, em “Os Desajustados” (1961).

“Nada além de uma sombra foi e será Marilyn Monroe para todos”, cravou o escritor cubano Guillermo Cabrera Infante, crítico de cinema quando jovem. “Essa presença sobre-humana, mais além da morte e do esquecimento, é o mito manifesto que agora chamamos Marilyn Monroe”. Happy birthday, Norma Jeane


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