Por Amir Labaki
Vinte e um filmes disputam no corrente 79ª Festival de Cannes ao L ‘Oeil d’Or (O Olho de Ouro) de melhor documentário, organizado pela LaScam, a sociedade francesa de autores audiovisuais com o INA (Instituto Nacional do Audiovisual francês), em parceria com o evento. Apenas em sua 11ª edição, o prêmio distingue produções não-ficcionais exibidas nas diversas seções oficiais do festival, incluindo a Seleção Oficial, a Quinzena de Cineastas, a Semana da Crítica e o programa da ACID, associação francesa de apoio ao cinema independente.
O júri deste ano é presidido pelo diretor ucraniano Mstyslav Chernov (vencedor do Oscar em 2024 por “20 Dias em Mariupol”), pela curadora americana, Tabitha Jackson, pela atriz francesa Géraldine Pailhas, pela cineasta francesa Lina Soualem e pelo jornalista investigativo também francês Victor Castanet. O vencedor será conhecido nesta sexta (22), na véspera da cerimônia de encerramento do festival.
Sem nenhuma surpresa, mais uma vez é impossível que coincidam a Palma de Ouro e o Olho de Ouro. Na efeméride do 70º aniversário da primeira Palma para uma obra não-ficcional,
“O Mundo Silencioso” (1956) de Jacques Cousteau e Louis Malle, nenhum documentário participa da disputa principal. Nas oito décadas de Cannes, apenas mais um documentário venceu a disputa principal: “Fahrenheit 11 de Setembro”, do americano Michael Moore, em 2004.
Dois anos antes, Moore já havia emplacado um dos raríssimos filmes não-ficcionais em concurso nas 79 edições, vencendo o Prêmio do 55º. Aniversário com “Tiros em Columbine” (2002). Tê-lo “em competição era inevitável, tal sua força”, destacou o diretor geral do festival, Thierry Frémaux, em entrevista a revista especializada Variety no mês passado.
Na mesma reportagem, indagado sobre a presença de outros gêneros na seleção do evento, Frémaux fez sua afirmação recente mais enfática sobre o cinema não-ficcional. “Documentários dizem mais para mim. Adorava os filmes de Chris Marker, (Marcel) Ophuls, (Claude) Lanzmann, (Frederick) Wiseman, etc.”. Diretor ele mesmo de dois documentários de arquivo com filmes dos irmãos Lumière, atribuiu a criação do programa paralelo de “Projeções Especiais” ao “puro prazer de exibir ‘Os Catadores e Eu’ de Agnès Varda em Cannes 2000”.
É assim que, neste ano, seis documentários são apresentados naquela seção: os americanos “Avedon”, “Groundswell” e “John Lennon: The Last Interview”, o britânico “Cantona”, o francês “Les Survivants de Che”, e a coprodução tcheco-espanhola “Rehearsals for a Revolution”. No ciclo Cannes Classics, mais cinco títulos, com filmes dedicados ao ator Bruce Dern, aos cineastas Chris Marker, David Lean e Vittorio De Sica, mais o novo episódio de “The Story of Documentary Film” de Mark Cousins e o retrato da crítica e ativista Michèle Firk por Jean-Gabriel Périot, “Une Vie Manifeste”.
Ainda na Seleção Oficial, dentro de Cannes Première, o único concorrente latino-americano ao 11º Olho de Ouro, “The Match”, em que os argentinos Juan Cabral et Santiago Franco reconstituem os ecos da Guerra das Malvinas de 1982 sobre a partida entre Argentina e Inglaterra na Copa do Mundo de 1986. Vale lembrar que três edições do prêmio documental distinguiram produções sul-americanas: o chileno-mexicano “Allende, Mi Abuello Allende”, de Marcia Tambutti Allende, em 2015; o brasileiro “Cinema Novo”, de Eryk Rocha, no ano seguinte (quando tive a honra de participar do júri); e o franco-chileno “A Cordilheira dos Sonhos”, de Patricio Guzmán, ax-aequo com o sírio-britânico “Para Sama”, de Waad Al-Kateab e Edward Watts, em 2019.
Nas três últimas edições, coproduções francesas estiveram entre as vencedoras (duas em prêmios divididos), sendo a mais recente o franco-belga “Imago”, de Déni Oumar Pitsaev. Como na disputa pela Palma de Ouro 2026, a França também lidera mais uma vez as representações nacionais na disputa do Olho de Ouro, com nove coproduções entre os 21 concorrentes. Entre estas, destaque-se o decano dos diretores gauleses em Cannes neste ano, Alain Cavalier, que aos 94 anos lançou “Merci D’Être Venu” na Quinzena dos Cineastas.
Favoritos? Se o documentarismo à quente sobre a guerra da Rússia de Putin na Ucrânia do presidente do júri der alguma dica, dois dos filmes em disputa mergulham em cotidianos de famílias do Irã: “Dans La Gueule de L’Ogre” (Na Boca do Ogro), da franco-iraniana Mahsa Karampour, e “Rehearsals for A Revolution” (Ensaios para a Revolução), da atriz iraniana, estreante na direção, Pegah Ahangarani. Mas, como reafirma a diversidade estilística dos vitoriosos na primeira década do Olho de Ouro, cada júri dita sua própria dinâmica.
PS (22/5) – E o 11º Olho de Ouro foi mesmo atribuído a “Ensaios para a Revolução”, de Pegah Ahangarani, com menção honrosa para “Tin Castle”, de Alexander Murphy. CQD.