Por Amir Labaki
A riqueza da paleta estilística do
documentário foi reafirmada pela premiação oficial do É Tudo Verdade
2026 – 31º Festival Internacional de Documentários, anunciada no último
dia 18. Até o próximo dia 4, o Itaú Cultural Play exibe com
exclusividade e gratuitamente em streaming dez destaques entre os
curtas-metragens brasileiros desta edição, sendo oito da competição
oficial, um da retrospectiva Vivian Ostrovsky e um da nova sessão
infantil É Tudinho Verdade.
O vencedor da competição
internacional de longas-metragens foi “Um Filme de Medo”
(Espanha/Portugal), dirigido por Sergio Oksman, cineasta brasileiro
radicado na Espanha. “Sagrado”, de Alice Riff, recebeu o prêmio máximo
da disputa de longas nacionais. A competição de curtas-metragens
internacionais foi vencida por “Sonhos de Apagão” (Cuba/Itália), de
Gabriele Licchelli, Francesco Lorusso e Andrea Settembrini, enquanto a
de curtas brasileiros consagrou “Os Arcos Dourados de Olinda”, do
diretor pernambucano Douglas Henrique, distinguido ainda em nada menos
que três outras premiações paralelas.
São marcadamente distintos os
dispositivos cinematográficos destes quatro vitoriosos, classificados
assim diretamente para a inscrição junto à Academia de Artes e Ciências
Cinematográficas de Hollywood para as disputas do Oscar de melhor
documentário de longa-metragem e de melhor curta documental. “Um Filme
de Medo” é uma obra híbrida entre o documentário e a ficção. Insere-se
“Sagrado” na tradição da escola wisemaniana do cinema direto”.
O contraste formal reafirma-se nos
curtas-metragens. “Sonhos de Apagão” explora um registro expressionista
e fragmentário. Por sua vez, “Os Arcos Dourados de Olinda” é um
divertido e engajado documentário de arquivo.
O texto de justificativa do júri
internacional, formado por Heloísa Passos, Vivian Ostrovsky e Ricardo
Casas, bem sintetiza o foco da original narrativa de Oksman, centrado
numa viagem de férias a um antigo hotel português: “Em um filme de
terror, não há monstros, apenas a distância entre dois mundos, pai e
filho. O pai tem medo de herdar os fantasmas do passado, e o filho
caminha leve, quase sem sombra”. Somando-se a seus triunfos anteriores
no festival, com o de melhor curta internacional para “Uma História para
os Modlin” (Espanha) em 2013 e de melhor longa brasileiro em 2016 para
“O Futebol”, Sergio Oksman empata com Carlos Nader, por três vezes
vencedor da competição nacional de longas com “Pan-Cinema Permanente”
(2008), “Homem Comum” (2014) e “A Paixão de JL” (2015), entre os
cineastas mais vitoriosos nas três décadas do É Tudo Verdade.
Em seu texto de apresentação a
“Sagrado”, que radiografa uma escola pública em Diadema, na Grande São
Paulo, Alice Riff explica como “já havia filmado a escola pelo ponto de
vista dos alunos em ‘Eleições’ (2018) e sentia que devia aos professores
e funcionários um filme que caminhasse com eles”. A força do processo
foi belamente captada pelo texto do júri brasileiro formado por Carol
Benjamim, Eryk Rocha e Helena Tassara, que num trecho assim justifica a
premiação: “Por afirmar, com rara precisão, um cinema em que a política
se inscreve na forma, no gesto e nas relações do cotidiano. Sem recorrer
a artifícios, o filme sustenta, do título ao último plano, uma direção
segura, rigorosa e profundamente consciente de seus meios”.
Sobre a premiação ao
curta-metragem rodado em Cuba pelo trio de diretores italianos, o júri
escreveu: “Uma sociedade agredida através do tempo e como viver com
infindáveis boicotes. A ausência de energia elétrica na ilha se
transforma em um recurso expressivo e cinematográfico”.
Por sua vez, “Os Arcos Dourados de
Olinda”, destacaram os jurados a partir de sua “narrativa lúdica”,
“constrói uma crítica ao imperialismo ao mesmo tempo afiada e desarmada,
que assume sem receio o popular, o clichê e as contradições da própria
identidade”.
A variedade de estilos
apresenta-se também nas menções honrosas atribuídas. Na competição
internacional de longas, à narrativa em primeira pessoa da estreante
Jihan por “Meu Pai e Gaddafi” (EUA/Líbia); na de longas brasileiros, a
“Apopcalipse Segundo Baby” de Rafael Saar; na disputa entre curtas
estrangeiros, ao “cinema da intimidade” de “Se Não Gosta, Não Olhe”
(França), da também estreante Margaux Fournier; e na de curtas
nacionais, a “Filme-Copacabana, de mais uma estreante, Sofia Leão, e a
“Divino: Sua Alma, Sua Lente”, de Clea Torres e Gilson Costta.
Premiações à parte, com tanto a
comentar, duas constatações finais se impõem. A forte presença de
público e a vigorosa cobertura crítica especialmente para a nova safra
de documentários brasileiros clamam por maior atenção institucional para
a produção, distribuição e exibição do cinema não-ficcional do país.
Segundo: esta história, já robusta, ainda tem muito a revelar, como
assevera o impacto da retrospectiva dedicada à obra personalíssima,
entre o documentário e o experimental, de Vivian Ostrovsky.