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30/04/2026
Duas ou Três Coisas Sobre o 31º Festival

Por Amir Labaki

A riqueza da paleta estilística do documentário foi reafirmada pela premiação oficial do É Tudo Verdade 2026 – 31º Festival Internacional de Documentários, anunciada no último dia 18. Até o próximo dia 4, o Itaú Cultural Play exibe com exclusividade e gratuitamente em streaming dez destaques entre os curtas-metragens brasileiros desta edição, sendo oito da competição oficial, um da retrospectiva Vivian Ostrovsky e um da nova sessão infantil É Tudinho Verdade.

O vencedor da competição internacional de longas-metragens foi “Um Filme de Medo” (Espanha/Portugal), dirigido por Sergio Oksman, cineasta brasileiro radicado na Espanha. “Sagrado”, de Alice Riff, recebeu o prêmio máximo da disputa de longas nacionais. A competição de curtas-metragens internacionais foi vencida por “Sonhos de Apagão” (Cuba/Itália), de Gabriele Licchelli, Francesco Lorusso e Andrea Settembrini, enquanto a de curtas brasileiros consagrou “Os Arcos Dourados de Olinda”, do diretor pernambucano Douglas Henrique, distinguido ainda em nada menos que três outras premiações paralelas.


São marcadamente distintos os dispositivos cinematográficos destes quatro vitoriosos, classificados assim diretamente para a inscrição junto à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood para as disputas do Oscar de melhor documentário de longa-metragem e de melhor curta documental. “Um Filme de Medo” é uma obra híbrida entre o documentário e a ficção. Insere-se “Sagrado” na tradição da escola wisemaniana do cinema direto”.

O contraste formal reafirma-se nos curtas-metragens. “Sonhos de Apagão” explora um registro expressionista e fragmentário. Por sua vez, “Os Arcos Dourados de Olinda” é um divertido e engajado documentário de arquivo.

O texto de justificativa do júri internacional, formado por Heloísa Passos, Vivian Ostrovsky e Ricardo Casas, bem sintetiza o foco da original narrativa de Oksman, centrado numa viagem de férias a um antigo hotel português: “Em um filme de terror, não há monstros, apenas a distância entre dois mundos, pai e filho. O pai tem medo de herdar os fantasmas do passado, e o filho caminha leve, quase sem sombra”. Somando-se a seus triunfos anteriores no festival, com o de melhor curta internacional para “Uma História para os Modlin” (Espanha) em 2013 e de melhor longa brasileiro em 2016 para “O Futebol”, Sergio Oksman empata com Carlos Nader, por três vezes vencedor da competição nacional de longas com “Pan-Cinema Permanente” (2008), “Homem Comum” (2014) e “A Paixão de JL” (2015), entre os cineastas mais vitoriosos nas três décadas do É Tudo Verdade.

Em seu texto de apresentação a “Sagrado”, que radiografa uma escola pública em Diadema, na Grande São Paulo, Alice Riff explica como “já havia filmado a escola pelo ponto de vista dos alunos em ‘Eleições’ (2018) e sentia que devia aos professores e funcionários um filme que caminhasse com eles”. A força do processo foi belamente captada pelo texto do júri brasileiro formado por Carol Benjamim, Eryk Rocha e Helena Tassara, que num trecho assim justifica a premiação: “Por afirmar, com rara precisão, um cinema em que a política se inscreve na forma, no gesto e nas relações do cotidiano. Sem recorrer a artifícios, o filme sustenta, do título ao último plano, uma direção segura, rigorosa e profundamente consciente de seus meios”.

Sobre a premiação ao curta-metragem rodado em Cuba pelo trio de diretores italianos, o júri escreveu: “Uma sociedade agredida através do tempo e como viver com infindáveis boicotes. A ausência de energia elétrica na ilha se transforma em um recurso expressivo e cinematográfico”.

Por sua vez, “Os Arcos Dourados de Olinda”, destacaram os jurados a partir de sua “narrativa lúdica”, “constrói uma crítica ao imperialismo ao mesmo tempo afiada e desarmada, que assume sem receio o popular, o clichê e as contradições da própria identidade”.

A variedade de estilos apresenta-se também nas menções honrosas atribuídas. Na competição internacional de longas, à narrativa em primeira pessoa da estreante Jihan por “Meu Pai e Gaddafi” (EUA/Líbia); na de longas brasileiros, a “Apopcalipse Segundo Baby” de Rafael Saar; na disputa entre curtas estrangeiros, ao “cinema da intimidade” de “Se Não Gosta, Não Olhe” (França), da também estreante Margaux Fournier; e na de curtas nacionais, a “Filme-Copacabana, de mais uma estreante, Sofia Leão, e a “Divino: Sua Alma, Sua Lente”, de Clea Torres e Gilson Costta.

Premiações à parte, com tanto a comentar, duas constatações finais se impõem. A forte presença de público e a vigorosa cobertura crítica especialmente para a nova safra de documentários brasileiros clamam por maior atenção institucional para a produção, distribuição e exibição do cinema não-ficcional do país. Segundo: esta história, já robusta, ainda tem muito a revelar, como assevera o impacto da retrospectiva dedicada à obra personalíssima, entre o documentário e o experimental, de Vivian Ostrovsky.



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