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10/04/2026
Conferência Discute o CInema Expandido
Por Amir Labaki

É como uma jornada de análise e debate do documentário como campo privilegiado para a expansão do cinema que acontece neste sábado, dia 11, em São Paulo, a 23ª Conferência Internacional do Documentário. Correalizado pelo 31º É Tudo Verdade e pela Cinemateca Brasileira, sede das mesas durante todo o dia, com entrada franca, o encontro investiga trajetórias que desafiam fronteiras estéticas e geográficas a partir do cinema não-ficcional.

Na mesa de abertura, às 9h30, o foco concentra-se na obra e vida do primeiro cineasta brasileiro a fixar sua múltipla produção na história do cinema, Alberto Cavalcanti (1897-1982). O ensaísta Carlos Augusto Calil, um dos maiores especialistas em sua filmografia, apresenta em “Cavalcanti: Obra Cigana” um sobrevoo de uma obra de incessante originalidade e raríssimo escopo.

“Alberto Cavalcanti deixou uma obra copiosa, como diretor, produtor, montador, desenhista de som, roteirista, cenógrafo. Um verdadeiro polígrafo. Destacou-se em todas essas especialidades e ainda era teórico do cinema e famoso por suas palestras e conferências”, resume Calil na apresentação ao encontro.

“Muitos testemunhos falam de seu papel agregador no set de filmagem e das habilidades de liderança em grupo”, recorda o atual presidente do conselho de administração da Sociedade Amigos da Cinemateca. “Atuou no mundo todo, especialmente na França, Inglaterra, Brasil, Itália, Espanha, Portugal, mas também na Áustria e em Israel. Em cinema, televisão e teatro. Distribuía seu talento em obras de não-ficção e de ficção”.

Cavalcanti marcou com destaque, entre outros, a vanguarda do cinema mudo francês (Rien Que Les Heures, 1926), a escola britânica de documentários em torno da GPO (Coal Face, 1936), também lá as produções pioneiras dos Estúdios Ealing (Went The Day Well?, 1942), e, em sua principal experiência brasileira, liderou a fase áurea dos Estúdios Vera Cruz e realizou, para a produtora independente Maristela, uma de suas obras-primas, a comédia social “Simão, O Caolho” (1952). Calil vai iluminar como o Brasil jamais devidamente o reverenciou.

Assim como Cavalcanti, Eryk Rocha desenvolve um cinema de invenção, tanto documental quanto ficcional, desde sua estreia com “Rocha Que Voa” (2002), vencedor da competição brasileira do É Tudo Verdade daquele ano. Membro do júri nacional do festival deste ano, Eryk vai conversar, na masterclass conduzida a partir das 11h pela pesquisadora Andréa C. Scansani, sua obra sempre inquieta, seja na pesquisa de processos criativos (Glauber, seu pai, o Cinema Novo, premiado em Cannes, Jards Macalé), quanto dos laços sul-americanos (Pachamama, 2008) e da cosmogonia yanomami (A Queda do Céu, codireção de Gabriela Carneiro da Cunha, 2024).

Dois jovens pesquisadores, a brasileira Clara Bastos Marcondes e o russo Kirill Goriachok (via internet), apresentam seus trabalhos em andamento, às 14h, na mesa “Mulheres Sem Câmeras/Mulheres Com Câmeras”. Marcondes discorre sobre “práticas feministas de reemprego de imagens”, em obras de diretoras como Agnés Varda, Albertina Carri e Marcela Fernandez Violante. Por sua vez, Goriachok aborda “além de Esfir Chub Chub e Elizaviêta Svílova, mulheres ocultas que fizeram o documentário soviético nos anos 1930”, como Lídia Stepánova, Archá Ovaniéssova e Olga Podgoriétskaia.

Celebrada pela retrospectiva do festival deste ano e membro do júri internacional, no marco de seu 80º aniversário e em plena atividade, Vivian Ostrovsky dialoga, às 15h30 na mesa de encerramento, com a curadora do ciclo, a cineasta Fernanda Pessoa. Será uma janela privilegiada para conhecer melhor uma obra que, nutrida por registros pessoais, arquivos diversos e “found footage”, há mais de 40 anos desafia classificações.

“Para mim”, adiantou Ostrovsky para Pessoa, “cinema experimental significa ter liberdade total – liberdade de duração, de tema, de forma. (...) Fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe de uma indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas”.

O público do Rio terá a rara oportunidade de ouvi-la, às 16h do domingo, dia 12, no Estação Net Rio 5, numa mesa mediada pelos professores Andréa França e João Luiz Vieira. Encontros marcados -até lá!


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