Por Amir Labaki
Com os bastidores do trauma da despedida surpreendente de David Bowie há uma década e a radiografia da eclética formação musical que há meio século abriu passagem para Alceu Valença, inicia-se na próxima semana o É Tudo Verdade 2026 – 31º Festival Internacional de Documentários. O mais tradicional evento brasileiro e latino-americano dedicado à produção não-ficcional é aberto para convidados na quarta, dia 8, por “Bowie: O Ato Final”, de Jonathan Stiasny, em São Paulo, e na quinta, dia 9, no Rio, pela pré-estreia mundial de “Viva 76”, de Lírio Ferreira.
Até 19 de abril, 75 documentários serão exibidos em sessões gratuitas em ambas as cidades. Sendo o É Tudo Verdade um festival classificatório pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas do Hollywood, os vencedores das quatro mostras competitivas oficiais, de longas e de curtas-metragens, brasileiros e internacionais, qualificam-se para a inscrição visando à próxima disputa do Oscar de melhor documentário de longa-metragem e de melhor curta documental. Responsabilidade e honra imensas ser o evento nacional e latino-americano que distingue dessa forma o maior número de produções.
O programa apresenta ainda, fora de concurso, projeções especiais, o ciclo informativo O Estado das Coisas, o Foco Latino-Americano, a mostra Clássicos É Tudo Verdade, homenagens, uma retrospectiva dedicada à cineasta experimental Vivian Ostrovsky e, pela primeira vez, uma sessão específica para o público infantojuvenil, o É Tudinho Verdade. Entre as atividades de formação, destacam-se a 23ª Conferência Internacional do Documentário, realizado no dia 11 em São Paulo em co-realização com a Cinemateca Brasileira, os Encontros no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc-SP, a masterclass Spcine no dia 19 com o mestre Jorge Bodansky e um debate com Ostrovsky, no dia 12 no Estação NET Rio.
Nunca tantos produziram imagens e sons, crescentemente nem todos humanos. Portanto jamais foram mais importantes os documentários.
A mediação de artistas com a câmera (e na mesa de edição) representa a um só tempo a sensibilidade e a salvaguarda que distinguem e garantem a emoção e a ética no processo vertiginoso de criação audiovisual no século 21. O conhecimento da autoria na origem das produções nunca foi tão crucial, logo a centralidade do papel de documentaristas.
Nada mais salutar, assim, que a divisão do programa entre o retorno ao festival de grandes mestres, alguns dos quais já premiados em edições anteriores, e a revelação de uma nada menos inventiva nova geração de cineastas. Suas obras compõem uma novíssima safra que reafirma o documentário na linha de frente formal da criação audiovisual contemporânea e reflete o espírito do tempo como em raros momentos de nossas três décadas.
Esse duplo desafio caracteriza, em mais de quarenta anos de produção, a criação audiovisual de Vivian Ostrovsky, nascida em Nova York, criada no Rio, formada em Paris. Entre o documentário e o experimental, feminista e cosmopolita, seu cinema expandido implode fronteiras, sejam de geografia como de formatos, nutrindo-se, entre tantos, de diários pessoais, arquivos públicos e “found footage”.
Segundo as palavras precisas da curadora da retrospectiva, a também documentarista experimental Fernanda Pessoa, autora de uma recente tese de doutoramento sobre Ostrosvsky, nesse “cinema que recusa estabilizações”, “observação do real e articulação de arquivos, procedimentos associados ao documental, ganham dimensões experimentais na montagem de sons e imagens construída por livre associação, variação rítmica e jogos de continuidade”. Sempre, comemore-se, com delicioso humor e intensa musicalidade.
Num ano tragicamente dilacerado por perdas de construtores essenciais da nova centralidade do documentário na cultura contemporânea, cumpre celebrar-lhes a memória e as contribuições ainda que em modestas homenagens. O escopo de um único festival inviabilizaria fazê-lo em toda sua dimensão mundial, lembrando artistas que honraram com sua presença a própria história do É Tudo Verdade, como Frederick Wiseman, Jorgen Leth e Marcel Ophuls. Nada menor é o legado, no documentário brasileiro, de Jean-Claude Bernardet, Silvio Da-Rin e Silvio Tendler, assim como o vácuo deixado por seus talentosos jovens herdeiros, Luiz Ferraz e Rubens Crispim Jr., homenageados numa mostra específica.
Há uma graça hipnótica em toda a obra fotográfica de José Medeiros (1921-1990), um dos pioneiros da moderna fotografia documental brasileira, também diretor de fotografia originalíssimo e cineasta bissexto, que o É Tudo Verdade tem o privilégio de exaltar nas artes desta 31ª edição. Clicada no Rio de 1942, “Linha do Bonde” é a prova. O encantamento do real pelo olhar de um artista. Não há divisa maior para este festival.