Por Amir Labaki
Contas feitas, a 98ª cerimônia de entrega do Oscar, no último domingo, desenvolveu-se sem grandes surpresas. O thriller político ‘Uma Batalha Após A Outra”, de Paul Thomas Anderson, liderou a noite com seis triunfos, incluindo dois dos principais, de melhor filme e direção, seguido de perto pelo drama musical de horror “Pecadores”, de Ryan Coogler, com quatro, entre os quais o de melhor ator, para Michael B. Jordan, roteiro original, para Coogler, e direção de fotografia, para Autumn Durald Arkapaw -acredite, a primeira mulher vitoriosa na categoria, em quase um século de premiação.
O thriller brasileiro “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, não surgia como favorito em nenhuma das quatro importantes categorias em que concorria. Não ter sido premiado nada reduz o impacto deste feito, que consolida na cena cinematográfica mundial seu diretor e roteirista, a produtora Emilie Lesclaux, e Wagner Moura, o primeiro ator brasileiro indicado pela Academia. O mesmo vale, pela pioneira indicação ao prêmio de melhor direção de fotografia (Sonhos de Trem), para Adolpho Veloso.
A vitória de “Uma Batalha Após A Outra” espelhou o zeitgeist dos EUA sob Trump, em sua alegoria de um país em escalada autoritária e de crescente repressão étnica e racial. Ecos da presente guerra no Irã e no Oriente Médio marcaram, contudo, de forma tímida a cerimônia, em franjas de agradecimentos, com exceção da breve intervenção do ator espanhol Javier Bardem, ao conclamar “não à guerra” e “Palestina livre”, ao apresentar o prêmio de melhor filme internacional para o bergmaniano “Valor Sentimental”, do norueguês Joachim Trier.
A tripla premiação de Paul Thomas Anderson (filme, direção, roteiro adaptado) conclui sua inserção no panteão contemporâneo de Hollywood, após uma longa espera. Antes de “Uma Batalha Após a Outra”, PTA acumulava onze indicações e nenhuma estatueta por sete filmes, de “Boogie Nights” (1998) a “Licorize Pizza” (2022). Nada levara nem mesmo por “Magnólia” (1999), talvez sua altmaniana obra-prima. É quando lembro, guardadas as devidas proporções, que Martin Scorsese venceu por “Os Infiltrados” (2007), não por “Taxi Driver” (1976), “Touro Indomável” (1980) ou “Cassino” (1995).
Dada a tradicional resistência da Academia a filmes com gêneros híbridos, não há como menosprezar a quebra de barreiras por “Pecadores” com seu recorde histórico de 16 indicações e sua segunda posição entre os mais premiados. Em menos de uma década, desde o incrível “Pantera Negra” (2018), Ryan Coogler escalou decidamente a escada dos mais talentosos cineastas de sua geração. O reconhecimento demorou muito mais, lembre-se, para Spike Lee, que, excetuado um prêmio honorário em 2016, foi vencer apenas em 2018, pelo roteiro adaptado de “Infiltrado no Klan” – “Faça a Coisa Certa” (1989) e “Malcolm X” (1992) nada levaram.
A força da indicação de Wagner Moura por “O Agente Secreto” foi extraordinária, mas bateu de frente com o franco favoritismo de Michael B. Jordan (Creed) para o prêmio de melhor ator no duplo papel dos gêmeos Smoke e Stack ao centro de “Pecadores”. Nenhuma dúvida pesava sobre a atribuição do Oscar de melhor atriz para Jessie Buckley (a primeira irlandesa a receber o prêmio), no papel de amplo arco de Agnes, a esposa de Shakespeare, em “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, dirigido por Chloe Zhao a partir do premiado romance de Maggie O’Farrell.
O triunfo entre os documentários de longa-metragem de “Um Zé Ninguém Contra Putin”, de David Borenstein e Pavel Talankin, a um só tempo sinaliza a sintonia da categoria com a temperatura internacional e comprova o impacto do saudável processo de cosmopolitização do braço não-ficcional da Academia. Não esqueça uma de tantas piadas infames da noite do apresentador Conan O’Brien, classificando os curtas documentais como “pequenas tristezas”, e responda conferindo na Netflix o vencedor da categoria, “Quartos Vazios”, de Joshua Seftel.
A performance de O’Brien foi constrangedora, embora felizmente abreviada, e o roteiro da cerimônia de maneira geral pareceu menos polido. Registrem-se, contudo, algum progresso em ritmo e a maior elaboração do segmento em memória daqueles dos quais nos despedimos. Foi bonito ver lembrados os documentaristas Frederick Wiseman e Marcel Ophuls e as tocantes celebrações de Rob Reiner, Diane Keaton e Robert Redford. Sim, uma era se encerra.