Por Amir Labaki
O ano iniciou-se, e janeiro se encerrou, já com uma primeira despedida crudelíssima para o cinema brasileiro, partindo Silvio Da-Rin (1949-2026). Líder cineclubista na juventude e Secretário do Audiovisual na maturidade (segunda Presidência Lula), técnico de som ativíssimo por duas décadas (anos 1980 e 1990) e raro documentarista exclusivo por quase meio século, com produção tão rigorosa quanto infelizmente sucinta (menos de dez títulos), Da-Rin não veio à vida a passeio, como a intensidade de sua presença anunciava sempre.
Sua militância, no melhor sentido do termo, foi cinematográfica como política, engajado na resistência durante os anos de chumbo da ditadura militar (1964-1985), a qual dedicou títulos inescapáveis de sua obra fílmica. Também teórica foi a excepcional contribuição de Da-Rin, sintetizada em sua dissertação de mestrado tornada livro, “Espelho Partido – Tradição e Transformação do Documentário (azougue editorial, 2004), pioneiro estudo brasileiro da história do cinema não-ficcional e de momentos áureos de sua inovação por aqui (Arthur Omar, Eduardo Coutinho, Jorge Furtado).
Mesmo antes de desenvolver uma das mais bem-sucedidas carreiras nacionais como técnico de som, Silvio já em 1979 anunciava seu talento como cineasta do real com o curta documental “Fênix”, um desbravador ensaio de arquivo que ligava dois momentos de movimentação popular contra a repressão do regime militar. Com depoimentos pontuais, o projeto original de um documentário sobre o Tropicalismo se tornou uma original reflexão conectando os protestos populares reprimidos entre 1964 e 1968 e as greves operárias de 1978-80.
“O processo foi intuitivo”, afirmou-me Da-Rin numa entrevista biográfica para a série Cineastas do Real no Canal Brasil em 2021 (disponível na Globoplay e em podcast). “Chamo o filme de um cine-almanaque. É realmente um documentário ensaístico e o filme que eu gosto mais dos que fiz”.
Seu curta-metragem seguinte foi catalisado pela leitura de uma reportagem no Jornal do Brasil. Em “O Príncipe de Fogo” (1984), Da-Rin reconstituiu a trágica história do então mais antigo preso no país, o assassino Febrônio Índio do Brasil, recluso há mais de meio século de reclusão no manicômio judiciário.
Em “Igreja da Libertação” (1985), seu primeiro média-metragem, o documentarista retratava à quente a batalha da ala mais progressista da igreja católica brasileira contra as pressões ortodoxas do Vaticano. Destaca-se a preocupação em investigá-la em seus vários ramos -agrário, operário, indigenista-, com a participação entre outros de Frei Betto, Dom Pedro Casaldáliga, Marcelo Carvalheira e mesmo do teólogo Leonardo Boff, então submetido a um voto de silêncio. A posteriori, Da-Rin manifestaria insatisfação por não ter abordado também o movimento em suas bases.
Quase duas décadas passaram-se até sua estreia em longa-metragem, naquela que talvez seja sua realização mais marcante. “Hercules 56” (2005) reconstituiu um dos episódios centrais da luta armada contra a ditadura, o sequestro em setembro de 1969 do embaixador dos EUA Charles Burke Elbrick, e o destino dos presos políticos libertados pela ação. “Foi uma marca muito profunda na minha geração”, frisou Da-Rin.
“Paralelo 10” (2012) também trabalha na reconstituição presente da história. É um “river-movie” que nos leva à região oeste do Acre, na fronteira com o Peru. O filme acompanha a longa batalha do sertanista José Carlos Meirelles, ao lado do antropólogo Terri Aquino, em defesa de indígenas isolados e de já contatados, contra posseiros e traficantes que lhes disputam as terras.
Seu filme de despedida, contou Da-Rin, “demorei décadas para fazer”. “Missão 115” (2018) prosseguia sua investigação histórica do período militar, radiografando o terrorismo de extrema-direita que se opôs à redemocratização, em atentados como o fracassado ao Riocentro em abril de 1981. Quando de sua estreia, as consequências da impunidade já se faziam ver no arreganhar de dentes de ascendentes forças autoritárias.
Ao perguntar-lhe sobre o mais importante documentário da história do cinema, ele não hesitou: “O Homem da Câmera” (1929), de Dziga Viértov. “É inesgotável, de uma riqueza extraordinária. (...) Um filme que traz a questão da autorreflexibidade, traz um conjunto enorme de formas de abordagem, de vertentes que seriam sucessivamente retomadas pela filmografia documental mundial”.
Tampouco piscou quanto ao título nacional mais marcante: “Cabra Marcado para Morrer” (1984), de Eduardo Coutinho. “Um filme magnifico, que trabalha dispositivos novos de modo extremamente criativo. (...) Um filme que reflete como nenhum outro a transformação que o Brasil sofreu ou deixou de sofrer com o golpe de 1964”.
“O documentário é um domínio do cinema inesgotável, talvez aquele com maior potencial criativo”, sustentava Da-Rin. “Tem uma interface com a vanguarda, com o cinema experimental, com o cinema ensaístico. Desenvolve formas sempre renovadas de como contar histórias”. Prosseguir honrando a tão bela definição é o mínimo que se deve em homenagem ao legado de Silvio Da-Rin.