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29/05/2020
Duas Vezes Antonio Candido
Por Amir Labaki

A ironia da funesta coincidência certamente não escaparia ao bom humor cativante do Antonio Candido (1918-2017). A eclosão da pandemia do coronavírus forçou o adiamento, em meados de março, do lançamento paulistano de sua “biografia ilustrada”, “A Formação de Antonio Candido” (Ouro Sobre Azul, 312 págs, R$ 94), escrita e editada por Ana Luisa Escorel, uma de suas três filhas, assim como a epidemia da gripe espanhola assolou o Rio quando ele contava apenas dois meses, com seu pai, o jovem médico Aristides, engajado no linha de frente do atendimento de infectados. “O grande temor era que viesse a contaminar o recém-nascido”, frisa Ana Luísa na página inicial do belo volume.

Completado neste mês, o terceiro aniversário de morte do mais brilhante e influente crítico literário do Brasil no século 20 (além de sociólogo) coincide com duas publicações inéditas que reafirmam o fascínio e iluminam a trajetória de Antonio Candido. Além da alentada fotobiografia, a revista Araticum da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) acaba de publicar on-line um dossiê a ele dedicado, com destaque para uma entrevista inédita sobre suas relações com o cinema, concedida em 2011 a Adilson Mendes, Olga Fernández e Max Fagotti.

Em ambas, preservadas as distintas pretensões, há primeiro o mesmo prazer do reencontro. Na entrevista, transcreve-se sua prosódia fascinante, demonstrando, na definição precisa de Ana Luisa, o “histrionismo à flor da pele com o qual passou a vida encantando alunos, divertindo amigos, a mulher, as filhas e, com o correr dos anos, genros, netas e neto”.

No livro, de um lado, ei-lo sempre sorridente e elegante em fotos desde o nascimento até sua inserção definitiva na crítica e docência literária, com sua contratação em 1959 pelo departamento de Letras da Universidade de Assis. De outro, sobretudo no capítulo dedicado à sua infância, resplandece o estilista das palavras, em citações generosas de trechos inéditos de seus registros memorialísticos, minuciosamente anotados em cadernos desde tenra idade até seu adeus.

Em sua “Nota Inicial”, a própria Ana Luisa aponta uma “falta de unidade” ao texto do volume, como consequência do acesso por ora ainda limitado ao caderno referente àquele primeiro período. Cumpre complementá-la: como que inspirado pela prosa paterna, seu retrato do crítico quando infante repete neste capítulo inicial o mesmo nível de encantamento literário similar ao de sua requintada obra de escritora, em livros como o memorialístico “O Pai, A Mãe e A Filha” (Ouro Sobre Azul, 2010) e o ficcional “Anel de Vidro” (mesma editora, 2013, Prêmio São Paulo de Literatura). E vale desdizê-la: os demais capítulos jamais se rendem à “escrita neutra e descritiva”, na verdade plantando as sementes de uma urgente biografia completa.

Nada menos que arrebatadora, por sua vez, é a jornada fotográfica por mais de um século de registros de família propiciados pelo trabalho de Laura Escorel (neta de Antonio Candido e filha de Ana Luisa) e Elisabete Marin Ribas, a partir do Arquivo Pessoal de Antonio Candido e Gilda de Mello e Souza doado, em 2017, ao Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Este tesouro documental, parcialmente apresentado na Ocupação Antonio Candido de 2018 no Itaú Cultural, responsável pelo financiamento de sua organização, restauro e digitalização, estará aberto em sua íntegra à consulta pública ainda neste ano.

Recordada no livro pelas constantes visitas de criança ao Cine Teatro Santa Rita e às salas da Cinelândia carioca, a paixão de Antonio Candido por cinema pauta integralmente o depoimento em Aracatum. “O cinema era minha mania”, confessa de saída. “Eu via o mundo através do cinema”.

A entrevista prossegue com suas recordações de espectador mirim, fã dos seriados mudos, revelando ter testemunhado, no período familiar na Europa de 1929, “os primeiros filmes sincronizados”. Já adulto e formado, um dos fundadores da Revista Clima (1941-1944), durante uma semana foi ao centro de São Paulo, num pulgueiro chamado Cine Mundi, para ver e rever o mesmo filme: “Os Cavaleiros de Ferro” (Alexandre Nevski, 1938), de Serguei Eisenstein. “Foi uma das grandes emoções da minha vida”, confessa.

O terço final da entrevista revisita suas lembranças do crítico Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977), “o amigo mais fascinante que eu tive”. Além de detalhar porque foi ele seu “guru político”, frisa uma discordância estética básica.

“Nunca concordei com o Paulo Emílio, que achava que a grande arte era o cinema mudo. Eu sempre achei que o cinema falado era uma coisa fantástica, muito melhor. O cinema mudo era muito teatro”. O depoimento abre parênteses aqui para descrevê-lo: “Faz gestos grandiloquentes”. É quando aperta a saudade.

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