Por Amir Labaki, de Cannes
Um quarto de século. Frequento Cannes há 25 anos. Desde anteontem estou em meio aos trabalhos do júri de documentários, o Olho de Ouro, criado no ano passado. Quando comecei a vir à Croisette, como jornalista, quase não se viam filmes não-ficcionais por aqui.
Basta lembrar que apenas dois documentários venceram a Palma de Ouro nas 69 edições do festival. A primeira foi há exatos 60 anos com “O Mundo do Silêncio”, de Jacques Cousteau e um iniciante Louis Malle. A segunda coube a Michael Moore por “Fahrenheit 11/9, em 2004.
O Olho de Ouro foi criado em 2015 numa parceria entre o festival e a Scam (Sociedade Civil de Autores Multimídia). Seu primeiro vencedor foi um documentário sul-americano, “Allende, Meu Avô Allende”, da chilena Márcia Tambutti Allende, exibido no É Tudo Verdade 2016.
Foram então 14 concorrentes. São 17 títulos neste ano, dispersos pelas várias mostras do festival, oficiais e paralelas, como a Quinzena dos Realizadores. Nenhum documentário foi selecionado neste ano para a disputa principal da Palma de Ouro.
A maior representação encontra-se mais uma vez em Cannes Classics. Nada menos que dez filmes. Entre eles está o brasileiro “Cinema Novo”, de Eryk Rocha. Filho de Glauber Rocha (1939-1981), Eryk faz um balanço estético da escola cinematográfica que teve seu pai como uma dos forças motrizes, por meio de um ensaio de arquivo.
Um projeto semelhante, de escopo ainda mais amplo, também participa da disputa: “Viagem Através do Cinema Francês”, um panorama de mais de 3 horas de duração assinado pelo cineasta e crítico francês Bertrand Tavernier (Round Midnight). De pegada similar é “E A Mulher Criou Hollywood”, das irmãs Clara e Julia Kuperberg, que no ano passado também disputaram o Olho de Ouro com “This Is Orson Welles”.
Dois outros documentários enfocam atrizes: “Luzes Brilhantes: Estrelando Carrie Fischer e Debbie Reynolds”, de Alexis Bloom e Fisher Stevens, e “Bernadette Lafont –E Deus Criou a Mulher Livre”, em que Esther Hoffenberg reconstitui a trajetória de uma das musas da “nouvelle vague”, falecida em 2013.
A seleção documental de Cannes Classics apresenta três outros retratos. “Contatos Imediatos com Vilmos Zsigmond”, de Pierre Filmon, celebra o diretor de fotografia de origem húngara que se tornou um dos profissionais mais influentes em Hollywood a partir de trabalhos com Robert Altman (Onde os Homens São Homens), John Boorman (Amargo Pesadelo), Michael Cimino (O Franco Atirador) e Steven Spielberg (Contatos Imediatos de Terceiro Grau, pelo qual levou o Oscar), entre outros.
“O Assobio da Família”, do ator Michele Russo, mergulha na história da família Coppola a partir da atribulada vida do avô de Francis Ford Coppola, Agostino Coppola. Por sua vez, dirigido por Benoît Jacquot, Pascal Mérigeau e Guy Seligmann, “Gentleman Rissient” destaca a contribuição essencial para a cinefilia francesa nos pós-guerra do octagenário distribuidor, produtor e cineasta Pierre Rissient.
A saga da exibição cinematográfica ambulante na Índia é reconstituída por “Os Viajantes do Cinema”, de Shirley Abraham e Amit Madheshiya. Por fim, encerrando os concorrentes em Cannes Classics, “A Volta da Meia-Noite: A História de Billy Hayes e a Turquia”, de Sally Sussman, relembra a história real por trás de “O Expresso da Meia-Noite” (1978), de Alan Parker.
O 11o documentário sobre artes a concorrer pelo Olho de Ouro é “Gimme Danger”, em que Jim Jarmusch homenageia Iggy Pop e sua banda punk The Stooges. Temas políticos e sociais marcam os seis outros concorrentes.
Quatro deles são apresentados em Sessões Especiais. O drama da imigração pauta tanto “Exílio”, do mestre cambojano Rithy Panh, quanto a coprodução greco-italiana “A Última Praia”, de Thanos Anastopoulos e Davide del Degan. O escritor Jonathan Littell estreia atrás das câmeras com “Elementos Errados”, sobre adolescentes que sobreviveram à experiência da luta de guerrilha em Uganda. Outra chaga africana é relembrada por Mahamat-Saleh Haroun em “Hissein Habré, Uma Tragédia do Chade”, em que retrata o ditador (1982-1990) conhecido como o “Pinochet da África”.
A Quinzena dos Realizadores exibe os dois últimos candidatos ao Olho de Ouro. Em “Risco”, Laura Poitras (Cidadãoquatro) radiografa o criador do Wikileaks, Julian Assange. Já Sébastien Lifshitz, vencedor do César de melhor documentário de 2013 com “Os Invisíveis”, sobre pioneiros da militância LGBT na França, homenageia um de seus personagens, Thérèse Clerc, morta em fevereiro passado. Sim, a briga é boa.
