RETROSPECTIVA INTERNACIONAL - MARINA GOLDOVSKAYA



A Mulher Da Câmera

Quando curiosos e pesquisadores do futuro olharem para trás para um balanço do que foi a experiência soviética e sobretudo de como ela se encerrou, será incontornável –e fascinante - assistirem aos documentários da cineasta russa Marina Goldovskaya. Quando curiosos e pesquisadores do futuro olharem para trás para um balanço do que foi a transição do cinema químico para o digital, será incontornável –e igualmente fascinante- assistirem aos documentários da cineasta russa Marina Goldovskaya.

Apenas uma artista formada pela URSS poderia radiografar, com iguais doses de intimidade e de compreensão social, a decadência e a superação do modelo soviético. Ninguém melhor do que uma intelectual russa para registrar e traduzir para o resto do mundo as mudanças tanto cotidianas quanto institucionais da nova Rússia de Ieltsin e Putin.

Formada pela mítica VGIK, Marina Goldovskaya foi umas das pioneiras mulheres a assumir o trabalho de câmera e a direção de fotografia na produção documental soviética para TV e cinema. Desde sua estreia como operadora de câmera em 1964, com o teledocumentário "Quando O Sol Não se Põe", Marina expandiu progressivamente seu domínio sobre o registro não-ficcional.

Gente sempre esteve ao centro de seu cinema. Pessoas comuns ou personagens famosos. Marina é desses raros cineastas com talento inato para filmá-los e ouvi-los, a um só tempo mergulhando em suas particularidades e extraindo a universalidade de cada experiência humana. Inicialmente concentrada em retratos para a televisão soviética, Marina aos poucos abriu o campo de seu cinema, como que desafiada pelos ventos liberadores da glasnost e da perestroika de Mikhail Gorbatchev. Sua consagração internacional não demorou a acontecer, com obras como "O camponês de Archangelsky" (1986), sobre a cruel coletivização de terras sob Stalin, e "O Regime Solovki" (1987), um dos pioneiros retratos fílmicos da tragédia dos gulags.

A virada dos anos 1980 para os 1990 marca uma dupla transição essencial para o desenvolvimento de sua obra: saem de cena a URSS e o negativo cinematográfico, é a vez de uma nova Rússia e do cinema de suporte eletrônico. Encolhem seu país e sua câmera, mas se alargam os horizontes estéticos de sua obra.

Frente ao fim do mundo que a forjou (a URSS e o cinema de grandes aparatos), um novo senso de liberdade se estabelece em seus filmes. Os documentários de Marina assumem cada vez mais sua subjetividade, tornando-se extensões ou reelaborações de seus diários filmados. "Um gosto de liberdade" (1991), "O espelho estilhaçado" (1992) e "A sorte de nascer na Rússia" (1994) registram o frenesi a um só tempo público e privado da vida em seu país refundado. Assim como a Rússia, Marina é e não é mais a mesma. Dessa instabilidade têm germinado Arte e História com maiúsculas.

Desde que, nos anos 1990, encontrou um novo amor no produtor americano George Herzfeld e uma nova casa como coordenadora do curso de documentário na UCLA, Marina Goldovskaya divide seu tempo entre Los Angeles e Moscou. Nada melhor para celebrar seu 70o aniversário do que a estreia de uma de suas obras mais tocantes, "O sabor amargo da liberdade", um ensaio de múltiplas camadas, do pranto íntimo ao berro cívico, sobre sua amizade com a jornalista investigativa Anna Politkovskaya, assassinada em Moscou em 2006. "Spaciba", Marina!

Amir Labaki



Filmes da Mostra




O Gosto Amargo da Liberdade
MARINA GOLDOVSKAYA (EUA / USA, 2010)


Um Gosto de Liberdade
MARINA GOLDOVSKAYA (EUA / USA, 1991)


Anatoly Rybakov: A História Russa
MARINA GOLDOVSKAYA (EUA, RÚSSIA / USA, RUSSIA, 2006)


Um Camponês de Archangelsky
MARINA GOLDOVSKAYA (URSS / USSR, 1986)


A Casa da Rua Arbat
MARINA GOLDOVSKAYA (FRANÇA, RÚSSIA / FRANCE, RUSSIA, 1993)


O Príncipe Está de Volta
MARINA GOLDOVSKAYA (FRANÇA, ALEMANHA / FRANCE, GERMANY, 1999, 2004)


O Espelho Estilhaçado
MARINA GOLDOVSKAYA (FRANÇA, RÚSSIA / FRANCE, RUSSIA, 1992)


A Sorte de Nascer na Rússia
MARINA GOLDOVSKAYA (FRANÇA, RÚSSIA, EUA / FRANCE, RUSSIA, USA, 1994)


O Regime Solovki
MARINA GOLDOVSKAYA (RÚSSIA / RUSSIA, 1987)




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